O Club Literário Guilherme de Azevedo e o Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio, fundado em 1942, promoveram um concurso literário, em Janeiro de 1943 patrocinado pelo Correio da Extremadura.

Para os promotores do concurso, “Santarém tem vivido muito à margem de um movimento sério de cultura” (CE, 23/1/1943, p.1). Segundo o regulamento, o concurso era aberto a todos os portugueses esperando-se uma forte adesão dos ribatejanos. Os textos obrigatoriamente inéditos deviam ser em prosa (novela, conto, ensaio, reportagem, crónica, peças em um acto, artigo de divulgação científica) ou em poesia, sendo, por razões técnicas, excluído do concurso a categoria de “romance”. Os organizadores esperavam encontrar jovens valores e tinham “a pretensão de auxiliar e acarinhar a revelação dos valores ribatejanos e até, mais ambiciosamente, de valores nacionais” (CE, 6/3/1943, p. 1). O prazo de entrega de originais decorreu entre 1 de Fevereiro e 31 de Março, na sede do Club Literário.

A 15 de Março, a organização tinha recebido quarenta originais, a maioria de trabalhos poéticos, disponibilizando-se o Correio da Extremadura para publicar os seleccionados pelo júri composto por Artur Proença Duarte, Virgílio Arruda, Humberto Lopes, Carlos Cacho e João Leal. A entrega de prémios decorreu no teatro Taborda no dia 10 de Junho, onde os vencedores leram os seus trabalhos e receberam prémios pecuniários e em livros do Correio da Extremadura, da Junta de Província do Ribatejo, da alfaiataria Portela, das livrarias Silva e Escolar. Na categoria de poesia foram premiados João Correia Vieira, Armando Curto Henriques e João Sidónio da Costa.

Na categoria de prosa, os prémios foram atribuídos a Pedro Alves dos Santos, Jacinto Martins, Joaquim Ferreira Campos e Álvaro Valente.

A 22 de Janeiro de 1944, decorreu, na sede do Club Literário, uma assembleia de delegados dos movimentos culturais da região de Santarém, em que estiveram presentes representantes da associação anfitriã, da Sociedade Recreativa Operária, da Associação Académica de Santarém, do Grupo Pró-Cultura dos Empregados no Comércio, do Orfeão Scalabitano e do Alpiarça Futebol Club “Os Águias”. Estes decidiram formar a comissão executiva do II Concurso Literário Ribatejano, solicitar apoio financeiro às autarquias locais e propaganda à imprensa regional. O regulamento era muito semelhante ao anterior, sendo novidade a admissão a concurso de “quaisquer produções musicais sobre temas folclóricos” (CE, 12/2/1944, p. 6). O júri analisou cento e cinquenta e cinco composições poéticas, trinta e oito textos em prosa (crónica, novela, ensaio, palesta, conto, teatro) e algumas canções folclóricas (poema e música). A entrega de prémios decorreu novamente a 10 de Junho, no teatro Taborda, na presença do governador civil, Eugénio de Lemos, Virgílio Arruda, Humberto Lopes e José Rodrigues Portela. A maioria dos premiados era de Lisboa, Évora, Faro, Braga, Golegã e Chamusca. Entre os escalabitanos laureados encontravam-se António Cacho, Georgina da Silva Anjos, João Correia Vieira, João Leal e Joaquim Ferreira Campos.

Em 1945, o III Concurso Literário Ribatejano foi organizado por colectividades escalabitanas com ligação ao Grupo de Coordenação Cultural. A comissão executiva era composta por Humberto Lopes, Agostinho Ferreira, Francisco Baptista, Diamantino Faustino representantes respectivamente do Club Literário, do Orfeão e do Grupo Pró-Cultura. O regulamento não apresentava alterações significativas em relação ao dos anos anteriores. Em Abril, a comissão executiva do Concurso concluiu que, tal como habitualmente, entre os trabalhos recebidos predominava a poesia e que muitos dos
concorrentes eram jovens.

O sarau cultural agendado para o dia 10 de Junho, no teatro Rosa Damasceno para a apresentação dos melhores trabalhos e a entrega de prémios, apenas se concretizou na noite de 29 de Junho. Este iniciou-se com uma conferência proferida pelo escritor Carlos Selvagem, pseudónimo literário do coronel Carlos Tavares de Andrade Afonso dos Santos, intitulada “O Ribatejo no Mapa da Nação”. O autor foi apresentado pelo presidente da comissão executiva do Concurso, Humberto Lopes, sendo a conferência repetida na noite de 7 de Maio de 1945, na Casa do Ribatejo, em Lisboa. Na segunda parte do sarau, a declamadora Manuela Porto recitou alguns dos poemas vencedores e de autores consagrados, perante o público que enchia o teatro. Na categoria de conto, o primeiro prémio foi atribuído em ex-aequo a “Sexto Filho” de Virgílio Ferreira e “Baleeiros” de António Cacho, que também recebeu o segundo prémio com “Manel da Rita”. Os premiados na categoria de poesia disputaram entre si vários prémios, como João Correia Vieira, Aida Valente Cunha, Jorge Manuel Goulão Pestana Bastos e Maria Noémia Lopes de Carvalho. Na categoria de novela, apenas foi atribuída uma menção honrosa a “O Piloto é uma Mulher” de Georgina da Silva Anjos. O espectáculo terminou com a actuação do Orfeão Scalabitano e da Orquestra de Câmara regidos pelo maestro Belo Marques, sendo solistas o tenor Manuel Afonso e o violoncelista D. José Zarco da Câmara.

Nos fins de Julho, a comissão executiva do Concurso reuniu pela última vez para agradecer o apoio logístico e financeiro das autoridades, da Casa do Ribatejo, das colectividades associadas e por fim, saudaram “o público de Santarém que cada vez mostra mais interesse vivo e saudável por espectáculos desta natureza, os concorrentes que em elevado número e com produção de muito mérito deram renome ao Concurso e o Grupo de Coordenação Cultural, que será de futuro, o organizador deste certame”(CE, 5/8/1945, p. 6).

Os Concursos Literários organizados pelo Grupo de Coordenação Cultural

O IV Concurso Literário Ribatejano passou a atribuir prémios a uma nova categoria que contemplava os menores de 15 anos. A entrega de prémios decorreu, a 10 de Junho de 1946, no teatro Rosa Damasceno. O serão cultural iniciou-se com a conferência “Camões e o Classicismo Português”, pelo musicólogo Luís de Freitas Branco, que foi apresentado pelo maestro Belo Marques.

A declamadora Dulce de Oliveira procedeu à leitura de algumas das poesias premiadas enquanto a cantora Judite Lupi Freire acompanhada pela pianista Maria Elvira Barroso interpretou obras de Bach, Schumann, Chopin e Frederico de Freitas. O encerramento esteve a cargo do Orfeão Scalabitano. O Grupo de Coordenação Cultural voltou a organizar o V Concurso Literário Ribatejano. O “sarau literário e artístico” para a entrega de prémios decorreu no teatro Rosa Damasceno, a 29 de Junho de 1947, integrado nas actividades do II Congresso Ribatejano.

De realçar que alguns dos premiados já anteriormente tinham sido distinguidos pelo júri, caso de António Cacho e Aida Valente Cunha e Silva. Outro aspecto curioso foi a atribuição do prémio de produção poética para menores de dezasseis anos a Rui Madeira Cacho, irmão de António Cacho.

O sarau que se iniciou com a conferência “Arte, Indivíduo e Grupo”, pelo professor da Faculdade de Letras de Lisboa, Vieira de Almeida, continuou com a actriz Maria Barroso que declamou poemas de Sidónio Muralha, Álvaro Feijó, Joaquim Namorado, Carlos Oliveira e Manuel da Fonseca entre outros e encerrou com a apresentação do Orfeão Scalabitano, dirigido pelo maestro Belo Marques.

O recital de Maria Barroso ficou envolvido em polémica perante a “agressividade” de alguns dos poemas escolhidos que levaram o governador civil, major António Manuel Baptista a abandonar a mesa de honra que se encontrava colocada no palco. Esta compareceu poucos dias depois do recital na sede da P.I.D.E. em Lisboa para prestar esclarecimentos sobre os poemas escolhidos e a relação com a prisão do marido, Mário Soares. Na sequência deste sarau, o Grupo de Coordenação Cultural foi extinto, encerrando-se a organização do Concurso Literário.

Em 1956, a Comissão da III Feira do Ribatejo em colaboração com o Círculo Cultural Scalabitano promoveu a realização de um concurso literário de moldes semelhantes ao extinto Concurso Literário Ribatejano mas que não obteve os índices de popularidade anteriormente obtidos.

Teresa Lopes Moreira