O ano de 1917 foi um “annus horribilis” na vida dos portugueses entrincheirados numa Grande Guerra, primeiro em África e, a partir de Janeiro, nos campos lamacentos da Flandres. O mundo envolveu-se numa guerra que esperava curta e que se tornou uma guerra longa. Enquanto isso, a Rússia vivia momentos de fragmentação, primeiro com a Revolução de Fevereiro liderava pelo menchevique Kerensky e posteriormente com a Revolução de Outubro, protagonizada pelos bolcheviques Lenine e Trotsky. Entre 1917 e 1920, a Europa assistiu a vinte e sete golpes de estado coroados de sucesso.

A instabilidade política após a Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910 acentuou-se em Portugal perante a crispação dos políticos e a grave crise económica. Após o falhanço governativo da “União Sagrada”, aliança dos partidos Democrático de Afonso Costa e Evolucionista de António José de Almeida, deixou o primeiro político cada vez mais isolado e cercado por acérrimos opositores como monárquicos, evolucionistas, unionistas, militares e católicos. A Igreja foi perseguida desde a Implantação da República por republicanos anticlericais, maçónicos e carbonários. O rosto dessa perseguição encontrava-se espelhado no partido

Democrático e especialmente no seu líder, Afonso Costa, apelidado de “Mata Frades”. Este legislou de forma a separar o poder político da influência da Igreja, cortando relações com a Santa Sé, em 1911. As novas leis permitiam o divórcio, reduziam o casamento a “um contrato”, concediam direitos aos filhos fora do casamento e instituíam a obrigatoriedade do Registo Civil. O Estado tornou-se proprietário dos bens da Igreja, intervinha na nomeação dos
clérigos, a prática do culto era remetida para o interior das igrejas e só aí se podiam usar as vestes talares. Os padres eram perseguidos, os templos vandalizados, o culto católico abeirava-se da clandestinidade.

No artigo “Ser ou não ser padre… democrático”, publicado a 10 de Novembro de 1917, no Correio da Extremadura, referia-se que “alguns democráticos, intolerantes não cessam de escabujar porque na “Lista do Concelho” entrou um sacerdote [Manuel Pinto Montenegro Carneiro]! Já se esqueceram acaso que o governador civil de Santarém, após o 14 de Maio [de 1915], foi um padre [João Lopes Soares (1878-1970)]?

Não se lembram que havendo padres democráticos no parlamento, a fazer leis, não é demais que haja um padre na Câmara de Santarém [João Gomes Moreira (1875-1963] para fazer simplesmente administração. E pode alguém duvidar que uma das melhores gerências municipais foi, precisamente, aquela a que presidiu o padre [Ernesto] Teixeira Guedes [1871-1925]? (…) Este horror aos padres adversários não se explica lá muito bem, sabendo-se que alguns que tanto se enfurecem contra os padres a eles devem o que são!”.

milagre do sol

“Milagre do Sol” na Cova da Iria a 13 de Outubro de 1917. Foto de Judah Benoliel / Arquivo de Fotografia do Santuário de Fátima

A fome espreitava muitos lares escurecida pela redução imposta da iluminação pública. O preço de géneros alimentares básicos como o pão e a batata tornou-se incomportável para os mais pobres. O país conheceu tumultos em várias localidades, incluindo Santarém, que envolveram o roubo de pão nas padarias e de sacas de batatas nas mercearias, mas também mortos, feridos e presos, especialmente em Maio de 1917.

As greves sucediam-se assim como a sua repressão. As epidemias como a febre tifóide alastravam antevendo a pneumónica. O Portugal pobre, rural e analfabeto, a quem tinha sido imposta por decreto a laicidade, não compreendia as provações que passava e esperava um milagre.

As aparições

A 13 de Maio de 1917, os irmãos Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920) e a sua prima Lúcia dos Santos (1907-2005), de 8, 7 e 10 anos respectivamente, afirmaram ter visto “uma Senhora vestida de branco por cima de uma azinheira”, no lugar da Cova da Iria, Fátima. Segundo a criança mais velha esta era a primeira aparição de outras marcadas para os dias 13 dos meses seguintes. Doze dias depois, o pároco de Fátima, Manuel Marques Ferreira, efectuava a primeira de várias inquirições às três crianças. No mês seguinte, a aparição renova-se na presença das crianças e de cerca de cinco dezenas de curiosos que afluíram ao local mas que nada vêem. A 13 de Julho são muitos os que aguardam “a aparição da Senhora” que o jornal “O Ouriense” identificou como “Nossa Senhora” e “O Século” intitulou de “aparição miraculosa”. Da terceira aparição nasceu o “milagre de Fátima”.

Entre os dias 13 e 15 de Agosto, as crianças foram retidas pelo administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, Artur de Oliveira Santos (1884- 1955) e o padre Manuel Marques Ferreira a fim de serem interrogadas e afastadas de uma possível quarta aparição.

O poder político republicano decidiu agir. Apesar da ausência das crianças, a multidão pesarosa e indignada reuniu–se junto à azinheira, onde alguns relataram uma repentina descida de temperatura. Nesse dia, o seminarista Joel de Deus Magno visitou a Cova da Iria e Fátima, relato que fez em carta para Santarém ao cónego Francisco Maria Félix (1874-). Pelas suas palavras percebe- se que a “vox populi” tomou conta dos acontecimentos, sendo difícil separar o sagrado do profano. A 19 de Agosto, Lúcia dos Santos descreveu a quarta aparição, no local de Valinhos, onde Jacinta Marto não esteve presente, sendo substituída por outro dos seus irmãos, João Marto (1906-2000).

Neste período, o Correio da Extremadura referiu-se pela primeira vez às aparições, revelando desconhecer o local exacto das mesmas, ao relatar “que de Santarém foram crentes em peregrinação aí para os lados de Torres Novas, para justificar mais um milagre no século XX. Tendo à mão de semear// um caso tão milagreiro//escusam de ir visitar//a Senhora do Sameiro” (CE, 18/8/1917, p. 2). A rectificação surgiu na edição seguinte “o que se diz… que não é para os lados de Torres Novas mas em Fátima, do concelho de Ourém, que se está reeditando o milagre de Lourdes” (CE, 25/8/1917, p. 2).

A aparição de Setembro contou com a presença de cada vez mais curiosos com destaque para o seminarista Joel de Deus Magno e os professores do Seminário Patriarcal de Santarém e do Liceu Sá da Bandeira, António Maria de Figueiredo e padre Manuel Nunes Formigão (1883-1958) respectivamente.

Os dois primeiros ficaram impressionados com a experiência vivida, o que não tinha sucedido inicialmente a Deus Magno, enquanto o futuro autor do “Relatório da Comissão Canónica” (1930), sentiu algum desapontamento especialmente com o comportamento de Lúcia. No início de Setembro, o Correio da Extremadura na sua rubrica “o que se diz” referia “que a Santa Fátima continua a fazer concorrência à Senhora de La Salete. Tem fama milagrosa// que outra não tem na Terra!//Mas seria mais piedosa//se cortasse o nó na guerra calamitosa” (CE, 8/9/1917, p. 2). No final desse mês, a mesma rubrica referia “que a Senhora aparecida em Fátima já prognosticou o fim da guerra” (CE, 29/9/1917, p. 2). Lúcia veio a afirmou que a Senhora lhe comunicou que a guerra terminaria a 13 de Outubro desse ano o que sucedeu apenas 13 meses depois, revelando um dos grandes embaraços para os defensores de Fátima.

A última aparição decorreu a 13 de Outubro perante milhares de pessoas de várias localidades e diferentes extractos sociais que assistiram ao intitulado “milagre ou bailado do Sol” revelando uma forte emoção colectiva. O fenómeno foi registado pelo jornalista de “O Século”, Avelino de Almeida, um ex-seminarista convertido em anticlerical. Ruy de Pina publicou no Correio da Extremadura o artigo “O Milagre de Ourém” onde referiu que “tem causado grande sensação o célebre aparecimento da Virgem numa charneca da Fátima! Pode afirmar-se que isso tem levado a preocupação às cabeças esquentadas de livres e presos pensadores mas não pelo facto da Virgem ter escolhido aquele local, de preferência ao Avenida Palace [hotel em Lisboa], onde por certo, estaria melhor instalada. Tudo porque há quem creia no seu aparecimento!… Certo é que muita gente afirma que o Sol dançou e este bailado do astro-rei tem causado uma certa admiração a muitos que nunca se encontraram, com tão esbraseador cavalheiro, nas salas de um clube.

Outro tanto não sucedeu a nós que, há muito tempo, prevíamos este desvairamento do Sol ofuscado pelo brilho das condecorações que se trocaram em pontos culminantes da península. E houve quem julgasse que pulou de contente!…

Foi apenas um ataque nervoso, já diagnosticado e, se continuarmos, arriscamo-nos a ficar… às escuras” (CE, 20/10/1917, p. 2). Entre 27 de Setembro e 3 de Novembro, o padre Formigão conduziu seis interrogatórios às crianças e às suas famílias por indicação do arcebispo de Mitilene, D. João Evangelista (1874-1958), governante interino do patriarcado. O inquiridor era devoto de Nossa Senhora de Lourdes, conhecia esse santuário e pretendia afastar a Igreja do ostracismo a que os republicanos a tinham votado. D. José Alves Correia da Silva (1872-1957), nomeado bispo da restaurada diocese de Leiria, a 15 de Maio de 1918, e o futuro cónego Formigão vão teorizar, limar as contradições e influenciar o futuro de Fátima, no qual a Irmã Lúcia será sempre uma presença ausente, controlada e distanciada.

A oposição à construção de um novo centro de peregrinação católico vai ser liderado nos primeiros anos por anticlericais radicais e por anarquistas. Na noite de 22 para 23 de Outubro de 1917 a azinheira relacionada com as aparições foi arrancada e transportada para Santarém juntamente com objectos que foram colocados no rude altar construído em seu redor. No dia seguinte, decorreu em Santarém uma procissão onde a azinheira era apresentada como relíquia que atraiu alguns curiosos. O acto atribuído a António Fialho e a Amadeu Torcato da Silva (1888-1955), entre outros anticlericais, acabou por cair no esquecimento quer pelos cépticos quer pelos crentes. A 6 de Março de 1922, explodiram quatro bombas na pequena capela das aparições em Fátima ficando inactiva uma quinta bomba junto à azinheira.

A 13 de Abril desse ano, o padre Formigão em carta enviada ao bispo de Leiria indicava os nomes dos implicados no atentado: António José da Silva Fialho, taberneiro e ex-regedor da freguesia de Salvador; Amadeu Torcato da Silva, chefe de conservação de estradas em Vila Nova de Ourém, carbonário, divorciado; Horácio Mota, contínuo do centro democrático e da Escola Primária Superior de Santarém e Barata, ex-seminarista e empregado na repartição de correios de Santarém. Todos os possíveis implicados encontravam-se ligados a Santarém, nomeadamente à taberna do Fialho e à Pensão Rapideza.

No entanto, os nomes não foram tornados públicos e à semelhança de outros actos idênticos não se identificaram os autores que por consequência não foram punidos.

Estes actos e a campanha republicana contra este novo fôlego da Igreja produziram o efeito contrário acabando por fortalecer as peregrinações, a afirmação e a construção de uma nova Lourdes, Fátima, que mantém a sua vitalidade quando comemora o seu primeiro centenário.

Teresa Lopes Moreira