Zeferino Pacheco Sarmento da Conceição nasceu em Santarém, a 16 de Janeiro de 1893, sendo filho de Zeferino Cândido da Conceição e de Maria Virgínia Sarmento da Conceição (1864-1950) e irmão do capitão Felizardo Sarmento e de Maria Virgínia Sarmento Areosa Feio. Apesar da sua formação académica ser o curso de engenheiro auxiliar electrotécnico do Instituto Industrial de Lisboa e de exercer funções nessa área nos Correios e Telecomunicações de Santarém, dedicou-se ao estudo e defesa do património, especialmente da sua cidade.

A partir de 1916, integrou a Comissão da Salvação dos Monumentos Históricos de Santarém, juntamente com João Arruda (1868-1934), Laurentino Veríssimo (1855-1936), Carlos Gomes (1881-1933) e Afonso de Ornelas (1880-1940) entre outros.

A 5 de Maio de 1922 ficou noivo de Judite Eugénia Barbosa Godinho, filha de Francisco Nunes Godinho, com quem casou no ano seguinte. Dessa união nasceu Maria Helena Sarmento Godinho que casou com o engenheiro José Eugénio Perdigão Godinho.

Em 1929, passou a integrar a Comissão de Iniciativa e Turismo (1930-1936), sob a presidência do ribeirense major de artilharia Egídio Augusto de Sousa (1865- 1943) e a convite do presidente do Conselho de Ministros, Artur Ivens Ferraz.

No ano seguinte, passou a integrar a Comissão Municipal de Arte e Arqueologia. Na década de 30, tornou-se também colaborador da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), responsável pela intervenção em vários monumentos durante o Estado Novo, nomeadamente em Santarém (convento de Santa Clara, igrejas da Graça e de Santa Cruz). A sua primeira obra, Santarém, foi publicada em 1931, com fotografias de José Marques de Abreu (1879-1958) e inserido na colecção “A Arte em Portugal”.

Zeferino Sarmento participou na Exposição-Feira de 1936, em Santarém, quer como presidente da Subcomissão da Parada Agrícola quer como vogal da Comissão Central. Nestas últimas funções organizou a “Exposição de Arte Antiga”, no Palácio do Provedor das Lezírias, actual edifício dos Paços do Concelho, o que lhe valeu a atribuição do grau de Oficial da Ordem de Mérito Industrial, pelo presidente da República, Óscar Carmona, que juntou ao grau de Oficial da Ordem de Cristo, atribuído em 1933.

Após a morte de Laurentino Veríssimo, Zeferino Sarmento foi convidado pela Câmara Municipal para reorganizar o Museu Arqueológico, “valorizando devidamente os exemplares que constituem o recheio de S. João de Alporão” (CE, 19/6/1937, p. 8). Segundo Joaquim Veríssimo Serrão (1925-), Sarmento “conferiu ao Museu a base erudita que escasseava na formação do seu antecessor” (CR, 16/9/1967, p. 1). Devido ao reduzido espaço de S. João de Alporão e ao elevado número de peças, Sarmento pensou transferir o Museu para o Convento de Santa Clara que na altura se encontrava em adiantado estado de degradação.

Apesar de Santa Clara ter sido alvo de obras sob a orientação da DGEMN, o projecto museológico não se concretizou. Ao longo do seu percurso à frente do Museu empenhou-se na tentativa de recuperar os túmulos do rei D. Fernando e da sua mãe D. Constança que, ontem tal como hoje, se encontram à guarda do museu do Carmo, em Lisboa.

Num artigo publicado no Correio da Extremadura de 17 de Julho de 1937 [p. 1], Sarmento relembrava que “poucas terras possuem um núcleo tão completo, com interesse e valor intrínseco, como Santarém e nenhuma, talvez, o tenha abandonado mais. Falamos muito e fazemos pouco! Tem sido preciso que outros venham mostrar-nos as jóias que possuímos, que nos revelem a existência delas, para as contemplarmos então!”. Segundo este defensor do património da cidade era necessário abandonar a “Irmandade de Nossa Senhora do não te Rales” e prestigiar a cidade de Santarém como capital na nova província do Ribatejo, sob pena de nada restar para os escalabitanos do futuro. Zeferino Sarmento lançou o embrião do Grupo dos Amigos do Museu e Obras de Arte e convidou publicamente todos os que o quisessem acompanhar neste projecto. Entre os primeiros que se lhe associaram encontravam-se o pintor Eduardo Rosa Mendes (1906-1983), Virgílio Arruda (1905-1989) e José Serrão de Faria (1881-).

Os primeiros trabalhos do Grupo deram- se em Julho de 1939, após a descoberta do túmulo da filha de D. Afonso III, a freira Leonor Afonso, que se encontrava enterrado no convento de Santa Clara, e foi alvo de um estudo a cargo de Zeferino Sarmento. Por pressão do Grupo junto da Câmara, esta solicitou à DGEMN, responsável pelas obras em Santa Clara, a cedência do túmulo.

No seu artigo “Museu Etnográfico de Santarém” publicado no Correio da Extremadura de 4 de Janeiro de 1941 [p.8], Sarmento corporizava um outro projecto do Grupo, a organização do chamado Museu dos Coches, a instalar na parte térrea do palácio doado à cidade por Anselmo Braamcamp Freire (1849-1921). Apesar do esforço financeiro, do empréstimo de alguns carros e outro espólio para figurarem na mostra, o Museu só foi inaugurado a 16 de Dezembro de 1945. Na inauguração, Zeferino Sarmento “historiou como nasceu a ideia da criação deste museu e como ele se formou com a ajuda de valiosas ofertas das casas agrícolas da região” (CR, 22/12/1945, p.2). Entre os “carros” expostos encontrava-se o coche da Casa Cadaval, uma sege do século XVIII pertencente à família Henriques, um carro de arruar também do século XVIII da família Paiva e um coche francês de Sílvio Perdigão.

Nas vitrinas encontravam-se expostos arreios, selins, selas, espadas, clavinas, pistolas, armaduras. O destaque ia para a colecção de arreios guarnecidos de prata cedida pela Casa Cadaval. O Museu dos Coches manteve-se em funcionamento até 1977, apesar da extinção do Grupo e da morte do seu patrono.

teresa 04-09-17

Zeferino Sarmento. Fonte: História e Monumentos de Santarém, 1993

Em Abril de 1940, Sarmento foi convidado para delegado da protecção a monumentos e objectos de valor arqueológico do concelho de Santarém. Dois anos mais tarde, a Câmara Municipal nomeou- o conservador dos Monumentos de Santarém. Em 1945, foi eleito vogal da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Santarém, funções que exerceu até Outubro de 1952, durante o mandato de três Provedores, José da Mota Henriques de Carvalho, major Júlio Alberto Gomes de Carvalho e António de Passos Canavarro (1904-1977). Sarmento foi um defensor e organizador do espólio do Arquivo da Misericórdia beneficiando da colaboração do funcionário José Hermida.

Em 1954, Sarmento envolveu-se na polémica da defesa da Torre do Convento da Trindade, protagonizada por Joaquim Veríssimo Serrão. Na sua opinião, a cidade possuía monumentos de maior importância a salvaguardar ligados à arte gótica, relembrando que o convento trinitário não se encontrava listado como monumento nacional. Sarmento defendeu a destruição da igreja porque esta não representava a grandiosidade medieval e a frontaria construída no século XVII tinha caído a 7 de Fevereiro de 1866. Por outro lado, a sua arquitectura era pobre e de pouco interesse para aqueles que visitavam Santarém. A Torre encontrava-se amparada pela débil construção, por isso Sarmento chegou a propor que esta fosse desmontada e reconstruída. Como amigo e admirador de Virgílio Correia (1888-1944), Sarmento, apesar de lamentar a possível destruição da Torre, considerava que era necessário preservar a “capital do gótico” e todo o património que lhe estivesse associado. A Torre sobreviveu à vontade alguns homens.

Em 1959, Zeferino Sarmento recebeu a medalha de ouro da cidade de Santarém e quatro anos mais tarde aposentou-se o que lhe permitiu dedicar-se a tempo inteiro ao património escalabitano proferindo conferências e/ou palestras. Também manteve a sua intensa colaboração com o Correio da Extremadura / do Ribatejo, Jornal de Santarém, Ribatejo Ilustrado, Vida Ribatejana, Comércio do Porto, O Século, O Mundo Português, Diário da Manhã, Boletim da Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais e Revista de Arqueologia. Os seus estudos, dedicados essencialmente à arte medieval, levaram o historiador de arte, Mário Chicó (1905-1966) a considerá-lo um especialista em arte gótica.

Zeferino Sarmento faleceu a 16 de Agosto de 1967 vítima de doença prolongada. Para comemorar o centenário do seu nascimento, em 1993, a Câmara Municipal de Santarém reuniu a maioria dos seus trabalhos na colectânea História e Monumentos de Santarém, prefaciado por Joaquim Veríssimo Serrão e a necessitar de uma reedição.

Teresa Lopes Moreira