No início da década de 30, a Espanha era um país pouco desenvolvido onde as instituições governativas se encontravam ligadas ao exército, à Igreja e aos latifundiários, a chamada “Trindade Reaccionária”, unida à monarquia e ao rei Afonso XIII. Na sequência da grave crise económica resultante da queda da bolsa de Nova Iorque, em 1929, a ditadura do político espanhol general Primo de Rivera entrou em colapso, levando à queda do governo e da monarquia. O exílio de Afonso XIII permitiu a proclamação da república espanhola em 1931, apoiada no operariado e esperançada em reformar e modernizar o país, rodeado pelas ditaduras portuguesa, italiana e alemã. Os partidos de esquerda dos mais liberais aos radicais uniram-se numa Frente Popular que lhes permitiu ganhar as eleições e bloquear o acesso da direita ao poder.

A Frente Popular, liderada por Manuel Azaña, venceu as eleições de 16 de Fevereiro de 1936 elegendo 60% dos deputados, derrotando a direita coligada na Confederação Espanhola das Direitas Autónomas composta pelo partido agrário, os monárquicos, os tradicionalistas e os fascistas da Falange. A tensão política aumentou em Espanha protagonizada especialmente pelas franjas das duas coligações, os anarquistas e os falangistas e levando a cabo vários crimes de sangue. Os últimos aguardavam que os seus aliados militares se sublevassem nos quartéis.

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O golpe franquista 

O general Francisco Franco veio dar eco a essa pretensão ao promover um golpe militar contra o governo republicano, a 17 de Julho de 1936. Nas principais localidades espanholas, muitos populares vieram para as ruas defender o governo democraticamente eleito, surgindo milícias anarquistas, socialistas e comunistas para combater o avanço dos falangistas.

O golpe não obteve o êxito esperado pelos seus organizadores e o país ficou dividido entre as forças nacionalistas de Franco e o governo republicano. As perseguições e os fuzilamentos sucederamse nos dois lados da barricada conforme Hemingway relatou no livro “Por quem os sinos dobram”. As tentativas de negociações entre os republicanos e o general Mola dos nacionalistas mostraram-se infrutíferas.

A 19 de Julho, Franco foi nomeado chefe do Exército de África, uma vez que se encontrava no protectorado espanhol de Marrocos. No dia seguinte, o general Sanjurjo morreu num acidente de avião quando seguia de Cascais para Espanha a fim de assumir o controlo das tropas rebeldes. Quatro dias depois da sublevação, a situação evoluiu de um golpe militar para uma guerra civil. As duas partes do conflito tentaram obter apoios internacionais, os republicanos junto do governo francês de Leon Blum e da União Soviética de Estaline, os nacionalistas junto da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini. A 21 de Julho iniciou-se a transferência de tropas nacionalistas de Tetuão para Sevilha enquanto militares e civis apoiantes do golpe se refugiaram no Alcázar de Toledo. Com a chegada dos apoios externos o conflito internacionalizou- se.

O conflito nas páginas do Correio da Extremadura

A 25 de Julho de 1936, Virgílio Arruda publicou o primeiro de diversos editoriais relativos ao conflito espanhol que intitulou “Reacção Triunfante”. À semelhança de todos os seus escritos sobre o conflito, a sua posição é parcial e de total apoio aos nacionalistas. Neste primeiro editorial culpabilizava os anarquistas pela situação que a Espanha vivia assim como “a criminosa apatia das “direitas” que originou este estado de coisas, quando da última batalha eleitoral, alentou os propósitos daqueles que, sob uma falsa bandeira, misturavam as suas ideias, a ponto de antepor ao prestígio nacional o credo soviético que lhe envenenava os espíritos e aquecia os bolsos”.

No editorial de 1 de Agosto, Arruda serviu-se das palavras contra a barbárie espanhola do intelectual Miguel de Unamuno, “quando ouço, como brados de libertação e de independência espiritual, os “vivas à Espanha”, penso que existe algo ainda mais alto. A Espanha não é só dos espanhóis. É da humanidade civilizada. Portanto, o nosso dever é salvar a civilização ocidental cristã que corre perigo!”. E usou-as para criticar “as hordas vermelhas, truculentas e sanguinárias, (…) essa mancha comunista que é o mais atroz insulto à civilização ocidental” que permitiram “a chacina cobarde, a profanação dos templos e dos lares, as mais ultrajantes violências cometidas ao abrigo da mais desconcertante impunidade”. Vinte e um dias mais tarde, Unamuno declarou o seu apoio aos nacionalistas, mas não sobreviveu aos horrores da guerra pois faleceu a 31 de Dezembro de 1936.

Entretanto a 28 de Julho, Franco já se encontrava em Sevilha de onde ordenou a marcha sobre Madrid. A 10 de Agosto os nacionalistas ocuparam Mérida e quatro dias depois tomaram Badajoz fazendo a junção das regiões que ocupavam. A cidade foi alvo de uma violenta repressão que teve grande impacto na próxima fronteira portuguesa e motivou o relato Chacina de Badajoz, do jornalista luso Mário Neves. Os republicanos perderam Granada a 18 de Agosto e entre os fuzilados encontrava-se o poeta Federico Garcia Lorca. Em resposta, várias personalidades ligadas à direita espanhola são assassinadas na prisão de Moledo, em Madrid.

Perante o alastrar da guerra, Portugal defendeu a sua neutralidade mas veio a permitir a organização de milícias de voluntários para combater em Espanha, os Viriatos.

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CE, 26/9/1936, p. 1

 

No editorial de 5 de Setembro, Virgílio Arruda equiparava “as lutas” ao “lodo” crente que “a lepra de Moscovo não poderá contaminar os sãos, que não querem ser filhos de “pasionárias” nem de megeras deificadas pela insânia criminosa daqueles que pedem cadeia ou hospício”. No artigo de 19 de Setembro, intitulado “Reconquista” estabelecia-se a semelhança entre a Reconquista Cristã iniciada em Covadonga por Pelágio e a guerra de Espanha. Ambas eram guerras longas com batalhas perdidas e ganhas, mas com a convicção que os melhores, os cristãos hispânicos no primeiro caso e os nacionalistas no segundo caso, seriam os verdadeiros e vitoriosos senhores da guerra.

A 26 de Setembro, apesar dos avanços do general Mola que entrou em San Sebastian, Arruda estava convicto que o fim da guerra não estava longe perante as atrocidades cometidas e pelos frequentes desentendimentos entre anarquistas e comunistas. Por “lá”, as forças nacionalistas libertariam a Espanha! Duplo engano: a guerra estava no primeiro de quatro anos; só a democracia poderia libertar a Espanha. Por “cá”, o artigo criticava todos os que apoiavam os republicanos e promoviam a “subversão”, “ambientes que urge sanear, a bem dos sentimentos da ordem e da pátria que não podem ser afectados por estes difusores de doutrinas destrutivas que se aproveitam da ignorância para fazer vingar os seus gérmenes malignos”. Estes foram os anos em que a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) mais perseguiu, prendeu, torturou, desterrou e matou como Afirma Pereira, de António Tabucchi. A conquista nacionalista de Toledo, a 27 de Setembro, foi aclamada no editorial de 3 de Outubro como “um símbolo de redenção e de heroísmo”.

Franco foi proclamado oficialmente chefe do governo em Burgos, a 1 de Outubro, e fixou o seu quartel-general em Salamanca, enquanto o exército nacionalista se reorganizava a norte. A 24 de Outubro, o jornal anotava a aproximação dos nacionalistas de Madrid, a preocupação pelas reservas de ouro espanhol terem sido enviadas para a União Soviética e a instalação do governo de Azaña em Barcelona.

Portugal cortou relações diplomáticas com a Espanha republicana a 23 de Outubro. No seu artigo de 31 desse mês, Virgílio Arruda considerava a necessidade de “definir posições que não afrontem, marcar atitudes que não envileçam, nem sequer deslustrem, o nome de uma nação que acima de todas as tenebrosas campanhas de ódio, movidas pelos seus inimigos, sabe manter integro o sentimento e o interesse nacional”. Dezoito dias depois, a Itália e a Alemanha reconheciam o governo de Franco enquanto os republicanos se mudavam para Valença e o líder e fundador da Falange, José António era executado em Alicante.

O esgrimir de forças pela posse de Madrid manteve-se durante semanas. Os republicanos reforçaram-se e Franco desistiu de atacar frontalmente a cidade para voltar à carga a 15 de Dezembro. “O triunfo da boa causa”, como lhe chamou Arruda no seu editorial de 14 de Novembro, continuava adiado entre rios de sangue.

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CE, 31/10/1936, p. 1

 

O auxílio escalabitano 

Em Dezembro de 1936, os nacionalistas portugueses acederam aos apelos do Rádio Club Português e do seu fundador Jorge Botelho Moniz ao organizaram-se de forma a prestarem apoio aos seus congéneres espanhóis. Cerca de quatrocentas camionetas e mil e duzentos voluntários vindos de muitos dos concelhos portugueses associaram-se para transportar para Espanha “os mais variados produtos, oferecidos pela generosidade dos portugueses de alma sã e de sentimentos dignos. Valioso foi esse grande carregamento (…) e outros se vão organizar” (CE, 12/12/1936, p. 1).

Em Santarém, os promotores do comício anticomunista e de apoio a Salazar que se realizou na praça de touros a 22 de Novembro constituíram uma comissão que “tem sido infatigável nas suas diligências, sendo eficazmente secundada por numerosas senhoras que espontaneamente têm oferecido o seu concurso recebendo avultados auxílios do nosso concelho. Sabemos que a freguesia da Ribeira briosamente empenhada nesta simpática e altruísta cruzada contribuiu com um camião de géneros, partindo da cidade alta dois outros camiões, os quais se juntaram às nove camionetas que Almeirim briosamente forneceu” (CE, 12/12/1936, p. 6).

A viagem iniciou-se na manhã de 8 de Dezembro, “sob a direcção do capitão Jorge Botelho Moniz que de Almeirim seguiu no carro de Vasco Andrade, para se juntarem aos restantes elementos concentrados na fronteira do Caia, na manhã de quarta-feira. De Santarém partiram conduzindo as camionetas e auxiliando os transportes Carlos Fagulha, Virgílio Arruda, Hugo dos Santos Morais, Guilherme Amorim, Carlos Antolin, Francisco Antolin e Jaime Rodrigues” (Idem).

O jornal apelidava de “boateiros” os que contestaram a viagem. Na sua coluna “o que se diz…” alfinetava “que se está tão mal na vizinha Espanha, que a equipa dos jovens escalabitanos não resistiu às atracções de Sevilha… que foi um desgosto para a família comunista o comboio automóvel a Espanha… que nem uma das ferozes ratas deu um ar da sua graça, quando tanto as reclamaram os seus serventes. Já é pouca consideração pelos “camaradas” de cá… (CE, 19/12/1936, p. 8) que os tripulantes do comboio automóvel que levou os donativos portugueses a Espanha, ao contrário do que muita boa gente supunha, voltaram sãos e escorreitos e estão prontos para voltar quantas vezes for preciso” (CE, 25/12/1936, p. 8). E a guerra civil afinal estava para durar…

 

Teresa Lopes Moreira

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