teresa 02-06

CE, 5/6/1926, p. 1

A “II Feira Franca: Exposição Feira de Produtos Agrícolas, Pecuários, Comerciais e Industriais”, de Santarém, programada para ser inaugurada a 30 de Maio de 1926, “ foi adiada “sine die” em virtude da situação anormal do país” (CE, 29/5/1926, p. 3). A “situação anormal” remetia para o Golpe Militar de 28 de Maio comandado pelo general Gomes da Costa, general Óscar Carmona e o almirante Mendes Cabeçadas.

O país vivia um período de grande instabilidade política que permitiu uma sucessão de 45 governos e que dos 8 presidentes da República, apenas dois cumprissem o seu mandato, Manuel de Arriaga e António José de Almeida. Alguns desses governos tiveram a durabilidade de apenas um dia o que enfraqueceu o jovem e frágil poder da I República. A crise económica, o desemprego, a falta de bens de primeira necessidade, as greves, a participação de Portugal na I Guerra Mundial, as constantes revoltas protagonizadas por monárquicos como Paiva Couceiro ou Júlio da Costa Pinto aumentaram o descontentamento e o derramamento do sangue português. O presidente da República Sidónio Pais foi assassinado na estação do Rossio a 14 de Dezembro de 1918. A “camioneta fantasma” conduzida por Abel Olímpio, o “Dente de Ouro” matou o chefe do governo António Granjo, o antigo ministro José Carlos da Maia e o herói da Revolução Republicana de 5 de Outubro, Machado dos Santos, na noite de 19 de Outubro de 1921.

Os militares vindos de Braga percorreram o país até Lisboa sem que sentissem a resistência ou mesmo a oposição. Os homens de Gomes da Costa desfilaram nas avenidas novas de Lisboa como heróis, a 6 de Junho de 1926. Nesse dia, em Santarém, inaugurava- se a “II Feira Franca”, condicionada pelo Golpe, pois a parada agrícola contou apenas com a presença de cindo casas agrícolas.

O Golpe em Santarém 

O Correio da Extremadura era filiado no partido Republicano Nacionalista no qual militavam alguns apoiantes do Golpe Militar. Inicialmente, o jornal “exaltou a pátria e um governo nacional de predomínio militar que promete morigerar os costumes, sanear as finanças, extinguir a burocracia inútil, restaurar a disciplina, punir todos os delapidadores da Fazenda Pública” (CE, 5/6/1926, p. 1). Esperava-se uma “patriótica e ambicionada política de ressurgimento nacional” (Idem) dentro do espírito republicano. No seu editorial, João Arruda regozijava-se pela queda do partido Democrático e “na hora própria, depurado o ambiente nacional por salutares reformas que soergam Portugal, elevando-se no conceito das nações, o partido Nacionalista – que recebe o governo militar na mais benévola das expectativas – terá ensejo de continuar a obra patriótica de reconstrução que, neste momento, só um ministério bem escudado na força pode realizar para a Nação” (Idem).

Por sua vez, o partido Republicano Nacionalista fazia publicar uma nota oficiosa onde se considerava “perante a situação nem vencido nem vencedor. O seu silêncio tem sido apenas determinado pela necessidade de se esclarecer devidamente. Nunca deixou, nem deixa agora, de definir a sua atitude. Vê com simpatia todos os movimentos renovadores do espírito e dos processos administrativos da República; continua a orientar-se exclusivamente como até aqui, pelo desinteressado propósito de bem ser o país e as instituições; sinceramente deseja que a República e a força armada saiam deste movimento dignificadas e engrandecidas; e aguarda com serenidade os acontecimentos, fazendo votos para que deles resulte para o país a normalidade indispensável ao seu progresso interno e ao seu prestígio exterior” (Idem, p.2).

As notícias de Santarém davam conta das movimentações militares na cidade. Os oficiais do Regimento de Infantaria 16 (coronel Freiria, tenentecoronel Geraldes, majores Vale e Brito, capitães Batista, Mata e Silva, Máximo, Jesus, Matos, tenentes Cardoso, Godinho, Montez, Gomes de Carvalho, Calarrão, Carvalho da Silva, Areosa Feio, Lombo, Cabrita, Sarmento, Santana, Serrão, Figueiredo, Paulo Jardim, A. de Oliveira, J. de Oliveira, capitão médico Sequeira e capitão chefe da música João Lopes), manifestaram o seu apoio ao Golpe, ao constatarem a vitória deste e a demissão do presidente da República Bernardino Machado, desde que o mesmo mantenha as “instituições republicanas; a moralidade da República nos seus processos políticos e administrativos, evitando a repetição de escândalos; a elevação à sua devida eficácia da força armada de terra e mar; a exclusão absoluta da política partidária; a manutenção deste regimento pelo tempo preciso para que se cumpram os seus objectivos e por um justo e criterioso sistema eleitoral que permitia o verdadeiro pronunciamento da Nação” (Idem).

O regimento de infantaria 7 que se opunha aos novos senhores do poder, acabou por se render em Perofilho, devido ao cansaço, quando se deslocava para Santarém. As tropas dos golpistas foram reforçadas com artilharia comandada pelo tenente J. Camacho. Na manhã de 2 de Junho, o regimento de infantaria 5 vindo das Caldas da Rainha instalou-se no convento das Donas, em Santarém. Dois dias depois começaram a chegar à cidade 1500 homens de artilharia, cavalaria e metralhadoras da 8.ª divisão de Braga, comandados pelo coronel Passos de Ferreira.

As autoridades administrativas foram exoneradas e o capitão Valente de Carvalho tomou posse como governador civil. O coronel Freiria foi substituído no comando do regimento de infantaria 16 para logo ser readmitido por pressão dos seus subordinados. Este, apesar de não ser parte activa no Golpe, foi ao Entroncamento cumprimentar o general Gomes da Costa a 2 de Junho. O papel do coronel Freiria foi amplamente salientado na edição de 5 de Junho do Correio da Extremadura com a publicação de um artigo de opinião assinado por M. Carrilho.

Do Golpe Militar saiu uma Ditadura Militar que limitou os poderes aos portugueses ao fechar o parlamento, instituir a censura, controlar o movimento sindical, proibir as greves e manifestações. A 17 de Junho de 1926, o general Gomes da Costa protagonizou um golpe de estado contra o almirante Mendes Cabeçadas. A 29 de Novembro desse ano, o chefe do governo general Carmona assumiu interinamente o cargo de presidente da República. Após afastar o general Gomes da Costa que por sua vez afastara o almirante Mendes Cabeçadas, o general Óscar Carmona convidou António Oliveira Salazar para Ministro das Finanças do quarto governo da Ditadura Militar, chefiado pelo coronel Vicente de Freitas que tomou posse a 18 de Abril de 1928. Salazar iniciou o seu longo percurso pelo poder em Portugal que só uma cadeira travou em 1968. O reviralho iniciou o seu longo percurso de oposição primeiro à Ditadura Militar e depois ao Estado Novo.

teresa 02-06 b

Almirante Mendes Cabeçadas, general Gomes da Costa e general Óscar Carmona ao centro da fotografia, 1928. Fonte: viajandonotempo.blogs.sapo.pt

Teresa Lopes Moreira

 

Download PDF