As romarias de cariz religioso e profano perdem-se no tempo, centrando-se muitas delas num período de obscuridade como foi a Idade Média. As romarias do norte do país tendiam quase exclusivamente para o pendor religioso enquanto as do sul se ligam preferencialmente “para as liberdades pagãs, razão, talvez, do excesso das barracas de “comes e bebes”, e da própria escolha dos sítios como sejam as “hortas” e os “retiros”. A questão é haver sombra e que se coma e beba” (Armando de Lucena, Arte Popular, Usos e Costumes Portugueses, vol. III, p. 94).

O culto a S. José, patrono dos carpinteiros, levou à existência de uma romaria que se encontrava inserida na sagração da Primavera que promovia os campos em flor assim como a sua fertilidade. Daí que a tradição de merendar ao ar livre em hortas e pomares esteja associada à natureza e à “franca liberdade dos campos”.

Na segunda metade do século XIX, quer o operariado quer a burguesia promoviam essa ligação à natureza. A burguesia esquecendo ou pretendendo esquecer a sua origem popular preferia merendar em espaços arredados da grande concentração de massas reunindo-se em quintas de familiares e/ou amigos situadas no Jardim de Cima, S. Pedro, Saúde, Portela ou organizando piqueniques nestes locais ou mesmo na Tapada. Na Saúde, os piqueniques decorriam na horta do cónego Cordeiro. Como tão bem retratou Cesário Verde: “Era o supremo encanto da merenda / o ramalhete rubro das papoulas/ naquele piquenique de burguesas”. Para os mais desfavorecidos, o dia de S. José era “consagrado à folia da classe operária” que se reunia na quinta das Ómnias, inicialmente pertença do padre João Rodrigues Ribeiro, onde “se maior fosse o dia, maior seria a romaria”. Num período em que o 19 de Março não era feriado municipal (criado pela I República, tendo Santarém optado pelo 18 de Maio e, posteriormente, durante o Estado Novo pelo 15 de Março), “os ranchos deambulavam alegremente pela estrada da Junqueira com as cestas bem providas (…) e porque S. José assim o quer, diante de uma posta de carneiro assado com batatas, não haverá um único operário que se confesse” (CE, 19/3/1932, p. 1). Nesse dia “uma república de gastrónomos foliões” organizava “grandes patuscadas aonde predominava como manjar divinal o belo sável do Tejo, corado no espeto ao ar livre e comido com um cheirinho de limão” (CE, 21/3/1896, p. 1).

O sável assado, frito ou de caldeirada era o “rei” da merenda, mesmo quando o seu preço era proibitivo, como sucedeu em 1917. Segundo uma receita de 1895, “esmaga- se a alface para condimento do sável que se fritou em casa” (CE, 23/3/1895,
p. 1). Entre os pratos de carne, destacava-se a “galinha corada de um louro tostado e forjada de manteiga” (Idem). A estes manjares juntavam-se o pão, o queijo, as azeitonas, variados peixes fritos, bolinhos e as laranjas colhidas nos pomares. À entrada das hortas instalavam-se as quitandas de bolos e de peixe frito onde se aglomeravam aqueles que não transportavam merenda como os soldados.

Os petiscos eram regados por limonadas e muito vinho. A dávida de Baco estimulava as zaragatas “e alguma dose de marmeleiro”. Na romaria de 1900, “houve princípio de desordem, entre paisanos e alguns soldados de artilharia, mas foi sufocada pelo capitão Sarmento que passava nessa ocasião na estrada” (CE, 24/3/1900,p. 1). De manhã, a Banda dos

Bombeiros deslocava-se à romaria sempre seguida da população através da calçada da Junqueira. Quando chegava às Ómnias, a Banda, antes do seu tradicional jantar, actuava na eira onde se improvisavam bailaricos que faziam “a delícia das sopeiras que se puseram a dar à perna nas valsas” (CE, 24/3/1894, p. 1). Os corpos uniam-se nas danças e estimulavam o namorico, “a um luar discreto, muitas confidências de amor se ficaram pelo caminho, perdidas pelos valados, escutadas pelos silvedos” (CE, 23/3/1929, p. 1). Acabados os festejos, os elementos da Banda regressavam pela referida calçada e davam uma volta à cidade a tocar pelos cafés e tabernas, a fim de angariar fundos para a colectividade.

Em 1917, perante a fraca participação na romagem, temeu-se que a tradição gastronómica se perdesse porque “a despeito de toda a sua popularidade, S. José não deixou de sofrer também com a lei separatória” (CE, 24/3/1917, p. 1). A laicização
decorrente na I República não teve força suficiente para acabar com esta festividade anual. Com o Estado Novo, a alteração do feriado municipal para 15 de Março incentivou o convívio nas Ómnias. Nem o ciclo das cheias afastava os romeiros, mesmo que fosse necessário adiar a festividade como sucedeu em 1934. O culto religioso ao Santo passou a ter um papel importante a par com os farnéis, os jogos tradicionais e os bailaricos. E como rezava a “Musa Galhofeira”, assinada pelo pseudónimo Sócrates e publicada a 19 de Março de 1904.teresa 30-3