francisco morgadoEstou a escrever no dia em que o camaleão mostrou ao mundo o seu poder. Devo dizer, em abono da verdade, que sempre me pareceu que o nosso país era uma espécie de paraíso para estes simpáticos bichos. Mas como são esquivos, mudam de cor e são silenciosos na busca da alimentação que recolhem com a sua língua pastosa, limitei-me apenas a intuir, sobretudo porque há muitos humanos que lhes imitam as atitudes.

Mas vamos ao que interessa.

Como devem saber, há largos meses que o programa Polis quer tomar posse administrativa das casas edificadas ao longo dos muitos anos passados, casas legais entenda-se, situadas na ilha do Farol, na Ria Formosa – Algarve. E são casas legais porque foram erguidas num tempo em que não havia os obstáculos ambientais que hoje existem. E no rol estão habitações permanentes, mas também ocasionais, que a fúria ambientalista agora quer arrasar.

Manifestações, reportagens de TV, abaixo assinados, lágrimas, apelos ao PR e à AR, nada disto resultou, chegando-se hoje ao dia de todas as angústias. A Polis vai tomar posse dos terrenos e levar os seus propósitos avante, conforme a lei que está em vigor.

Mas em Portugal, raramente o que parece inevitável o é e muito por mérito ou demérito dos tais camaleões, sejam eles de quatro ou duas patas.

Dá-se o caso de o Município de Olhão, ter um jurista que fez jus ao nome da sua terra de origem, pois fez saber aos juízes da comarca, através de uma providência cautelar que a destruição das construções do núcleo do Farol poria em causa irreversível o habitat dos camaleões daquele local, argumento que encontrou acolhimento naquela casa da justiça, levando a que os elementos da Polis, que já estavam no local, abandonassem a ilha, debaixo de uma ovação de vitória dos habitantes e com acenos de boa-viagem de regresso até Faro.

Nunca mais o camaleão vai ser visto com os mesmos olhos pelos habitantes da ilha do Farol, no Algarve, o mesmo acontecendo aos homens da Polis.

Não duvido que haverá por ali um grande movimento para caçar moscas e outros insectos, levando-os depois em caixas embrulhadas com vistosos laçarotes. Nunca mais serão apanhados pela cauda, ficando naquela posição incómoda que tanto os irrita, como também passarão a ser bem recebidos em qualquer casa, com direito a todas as mordomias.

Pelo lado da Polis afinar-se-ão também os argumentos para contestarem a decisão daquele tribunal, naturalmente dizendo que em Portugal camaleões há muitos, pelo que os daquela ilha não terão assim tanta importância. E podem também aduzir que os camaleões até podem ser prejudiciais porque uma área sem insectos, voadores ou rastejantes, leva a uma quebra da economia, uma vez que não se vendem insecticidas.

Vistos e revistos os argumentos de ambos os lados, segue-se para bingo, como diz o JJ encarnado e temos temas para muitos meses.

Oxalá, oxalá este interregno leve a que se faça uma justiça justa.

Pessoalmente, penso que abater uma casa é sempre um acto que encerra o derrubar de um sonho. Entre os escombros fica sempre o desespero impotente, que muito frequentemente ofende o mais fraco.

Camaleões do meu país! De uma vez por todas, atentai na vossa força!

Francisco Morgado