Montemor é praça cheiaA corrida do passado domingo em Montemor-o-Novo tinha um cartel muito aliciante, com a actuação de três das mais consolidadas figuras da actualidade – Rui Fernandes, Manuel Telles Bastos e João Moura Jr. – e do prestigiado Grupo de Forcados Amadores de Montemor, em tarde de homenagem da Presidência da República, com a atribuição da Ordem de Mérito. Toiros de Silva Herculano e, como é tradição nesta data, casa cheia.

Com a devida vénia, transcrevemos a crónica de Miguel Alvarenga, publicada no Farpas Blogue, para que melhor se divulgue o que foi uma grande jornada tauromáquica, onde não faltou emoção, verdade, valentia, ansiedade e brilhantismo, muito brilhantismo. Parabéns ao Grupo de Forcados Amadores de Montemor por tão justa distinção presidencial – uma vez mais sem a presença do Presidente da República… enfim, contas de outro rosário.

“Cumpriu-se a tradição, mesmo sem esgotar (o cartel justificava-o), Montemor foi ontem [Nota da Redacção – Domingo, 6 de Setembro] praça cheia e os toiros, sérios e de grande transmissão, da ganadaria Silva Herculano contribuíram para a emotiva tarde de que foram protagonistas os cavaleiros Rui Fernandes, Manuel Ribeiro Telles Bastos e João Moura Júnior, bem como os Forcados Amadores de Montemor.

Houve suspiros e corações apertados nas bancadas e muita emoção na arena, não apenas pelas actuações de todos os artistas, mas também pelos acidentes, felizmente sem consequências graves, do cavaleiro Manuel Telles Bastos, que foi duas vezes ao chão enquanto lidava o quinto toiro da ordem, e do forcado Francisco Borges, que perdeu os sentidos após violento derrote quando tentava pegar o último toiro.

O ganadeiro Henrique Herculano, filho do saudoso Dr. Jaime Herculano, fundador da ganadaria, deu aplaudida e merecida volta à arena no terceiro da ordem. Não foi, nada que se lhe pareça uma corrida de toiros “pastelões”, “nhoc-nhoc’s”, como um dia Salgueiro baptizou os suaves Murubes (nem todos, atenção) que nos tentaram impor em anos anteriores e que parecem agora definitivamente “fora de combate” (ou quase), numa temporada em que voltaram às nossas arenas os toiros de verdade e se repôs a emoção e a seriedade que tão afastada andaram deste reino das touradas…

Há que felicitar, antes de mais, a primorosa organização da empreendedora dupla empresarial Simão Comenda/Paulo Vacas de Carvalho, por mais uma jornada de grande impacto e por esta corrida que todos os anos marca a temporada – e ontem a marcou uma vez mais.

(…) Rui Fernandes está um Senhor Toureiro, consolidou uma posição cimeira e de grande destaque no panorama taurino mundial e ontem reafirmou o momento alto que vive e a excelente qualidade da sua magnífica quadra de cavalos, com soluções e argumentos para fazer frente a todos os toiros. As coisas não se apresentaram fáceis, frente a dois toiros duros e encastados, que pediam contas, mas Rui fez parecer tudo simples e a suavidade e serenidade com que toureou demonstraram a maturidade e a solidez de uma carreira subida a pulso. É um dos grandes do momento e só é pena que toureie pouco – porque faz falta e engrandece qualquer cartel. Não se entende por que razões só esteve este ano uma vez em Lisboa e porque não está na Feira da Moita…

Manuel Telles Bastos faz gala no seu toureio clássico, segue a linha de maestria de seu tio António e dá sempre gosto vê-lo tourear com a verdade e a classe que põe em todos os pormenores das suas actuações. Ontem teve uma intervenção brilhante no seu primeiro toiro, bregando com a superioridade de sempre e cravando ferros como os livros ensinam, ao estribo, com o rigor e a verdade de outros tempos. E no segundo, um toiro que não era para brincadeiras, teve algum azar, mas jamais virou a cara e remontou-se sempre, utilizando o mesmo cavalo, depois de sofrer duas aparatosas quedas: uma por o cavalo ter escorregado junto às tábuas, sendo aparatosamente alcançado pelo toiro, e outra por violento toque quando cravava o último ferro curto. São coisas que acontecem aos melhores e que fazem parte das emoções de que vive a Festa. Foram, por isso, injustificados e incompreendidos os assobios que se ouviram depois da segunda queda. Manuel recompôs-se e pôs um último ferro, ousado e em terrenos de risco, afirmando a sua classe e a sua garra – que são grandes e fazem dele um jovem à antiga e diferente.

João Moura Júnior voltou ontem a afirmar a liderança que assumiu de forma clara e inequívoca nesta temporada de 2015 e, uma vez mais, marcou a diferença, sobretudo no último toiro, com ferros de parar corações, ferros daqueles que “dão dinheiro” e colocam um toureiro no mais alto dos patamares de qualquer escalafón. No seu primeiro toiro, terceiro da ordem, cravara já aquele que fora, até ali, o grande ferro da tarde. No seu segundo, abriu o compêndio e explicou por que razão é este ano o primeiro. Todos os pormenores de brega, a forma como lidou os toiros e a emoção que colocou em todos os ferros, em terrenos de alto compromisso, a entrar verdadeiramente pelo toiro dentro e a sair como se nada de arriscado tivesse feito, foram apenas pormenores de uma lide que marcou a grandeza do toureio do jovem Moura e reafirmou todos os atributos e mais alguns com que tem sido glorificado e cantado nesta grande temporada de 2015.

Condecorado antes da corrida pela Presidência da República, o Grupo de Montemor teve ontem a sua habitual festa na Feira da Luz, em Montemor-o-Novo, e no final foi chamado à arena para agradecer os calorosos e merecidos aplausos do público com o cavaleiro João Moura Júnior. Abriu ontem praça, como manda a tradição, o Cabo António Vacas de Carvalho, que brindou ao Prof. Valente de Oliveira, que representava o Presidente da República. Sofreu fortíssimo derrote na primeira tentativa e consumou a pega à segunda, dando volta com o cavaleiro Rui Fernandes; Forcado de méritos consagrados, Filipe Mendes disse ontem adeus às arenas e à carreira em que tão bem honrou e dignificou a histórica jaqueta do Grupo de Montemor; Frente a um toiro duro e complicado, concretizou a pega ao terceiro intento, depois de ter sofrido violentos derrotes nas duas primeiras intervenções. É um Forcado de alma e sentimento que deixa história e grandes recordações nas arenas. O público premiou-o com uma volta à arena com Telles Bastos e outra sozinho; Raça, grande técnica, imenso valor
e muita alma!; João Braga concretizou enorme pega ao primeiro intento, fechando em glória a primeira parte da corrida de ontem. Não despiu a jaqueta, mas pôs aqui um ponto final na sua brilhante e valorosa carreira como Forcado – que recordaremos sempre. Deu volta à arena com Moura Jr. e depois mais uma a sós, com o público de pé prestando homenagem a um Grande Forcado! Brindou esta sua última pega a todos os companheiros do Grupo; Esteve grande Miguel Dentinho a pegar o quarto toiro da ordem, consumando à segunda e dando depois aplaudida volta à arena com o cavaleiro Rui Fernandes e a dupla de Campinos que recolheu os seis toiros a cavalo. Foi uma pega rija e emotiva, com o Grupo a ajudar com grande coesão; Francisco Bissaya Barreto fez um pegão ao quinto toiro da tarde, a segunda pega de ontem concretizada ao primeiro intento. Esteve muito bem a citar e a recuar, fechando-se com técnica e sendo depois muito bem ajudado pelos companheiros; A última pega da tarde foi concretizada por Frederico Caldeira na sua segunda tentativa, depois de o toiro ter deixado inconsciente na arena o forcado Francisco Borges, que foi conduzido à enfermaria
e posteriormente ao hospital. Na primeira reunião de Caldeira, o toiro teve uma estranha investida e tirou o forcado da cara. À segunda (que era a terceira tentativa para pegar este complicado exemplar da ganadaria Silva Herculano), com as ajudas mais carregadas, o experiente forcado consumou por fim a pega, mas no final recusou dar volta à arena, apesar de autorizada pelo director de corrida Agostinho Borges.

Os seis toiros foram primorosamente recolhidos a cavalo e os valentes Campinos premiados com merecida volta à arena no quarto da ordem. Resta acrescentar que a corrida foi muito bem dirigida por Agostinho Borges e que são tardes como a de ontem em Montemor que dignificam e engrandecem, com seriedade, toiros de verdade e toureiros de luta, esta Festa que tem cada vez mais adeptos e mais entusiastas, voltando aos poucos ao glamour e à grandeza que teve em tempos idos. Temos hoje toureiros, forcados e outra vez toiros para dar continuidade a um espectáculo secular e que andavam a desvirtuar com toirinhos de brincar. Bem hajam, Simão Comenda e Paulo Vacas, pelo exemplo que deram ontem.”

GFA Montemor - Miguel DentinhoExcelente pega de Miguel Dentinho

GFA Montemor - 6-9-2015

Miguel Alvarenga