Desta feita não se cumpriu o adágio de “Montemor Praça Cheia”, pois, o respeitável público, vá lá saber-se porquê, não correspondeu à tradição desta corrida de Maio e primou pela ausência preenchendo pouco mais de metade da escassa lotação do carismático tauródromo alentejano.

Os toiros de Fernandes de Castro estavam bem apresentados, mas tiveram um comportamento desigual, saindo melhores os que foram lidados em quinto e sexto lugares.

Luís Rouxinol esteve em plano de dignidade, embora sem lograr triunfar, como é seu apanágio, muito por culpa dos seus oponentes que saíram difíceis e a pedir muitas contas. Rouxinol teve que porfiar imenso para despachar a ferragem da ordem, tanto no primeiro, que deu direito a intervalo, por se haver desembolado parcialmente e ter sido recolhido aos curros para regressar à arena mais tarde, como no segundo, que resultou intragável e perante o qual o cavaleiro de Pegões teve que porfiar imenso para se desincumbir da ferragem, na maioria das vezes em sortes a sesgo.

Filipe Gonçalves, cultivando um toureio dinâmico e alegre, agrada ao público e cada vez parece reunir mais consenso entre os aficionados mais exigentes, pois, tanto é capaz de protagonizar gestos e atitudes de mediano interesse, e muito populismo, como se arrima e desenha sortes de um valor e risco inquestionáveis. Frente ao primeiro do seu lote andou razoável, destacando-se num ferro muito meritório, porém, no segundo toiro, um dos mais colaborantes da corrida, Filipe Gonçalves logrou rubricar uma lide de muita qualidade, elegendo adequadamente terrenos e distâncias, e cravou ferragem de muito mérito, pela verdade dos terrenos, destacando-se com as bandarilhas e com o palmito final.

João Salgueiro da Costa reencontrou-se em Montemor com o que de melhor já lhe vimos fazer. Andou muito bem frente ao seu primeiro, colocando ferragem de muita qualidade, e no que encerrou a corrida Salgueiro da Costa demonstrou por que razão continua a alimentar as expectativas de tantos aficionados de poder vir a ser grande figura do toureio. Empenhado em desenvolver um toureio sério e emotivo, o jovem marialva desenhou portentosa lide, cravando a mais emotiva ferragem da tarde, em sortes plenas de risco e de valor, rematadas com arte e puro sentimento estético. Temos Homem!

Falar de toiros em Montemor, é, naturalmente, evocar grandiosas actuações do valoroso Grupo local, sem dúvida um dos mais prestigiados entre todos, todavia nesta tarde o Grupo de Évora logrou superar a concorrência e atingiu um nível muito alto.

Pelos Amadores de Montemor, que não foi bafejado pelo sorteio, foram solistas Manuel Dentinho, que à terceira tentativa consumou uma pega de muito valor, depois de em duas anteriores tentativas haver aguentado duríssimos derrotes; João da Câmara, que também apenas conseguiu concretizar a sua sorte à terceira, porém, esteve sempre em plano superior, aguentando barbaridades e sem nunca perder a alma; e o Cabo António Vacas de Carvalho, que realizou uma pega tecnicamente irrepreensível, ao segundo intento, depois de na tentativa inicial haver aguentado uma duríssima viagem com o toiro a fugir ao Grupo.

Os Amadores de Évora tiveram uma tarde soberba, consumando todas as sortes ao primeiro intento. O primeiro toiro do seu lote foi pegado superiormente por João Madeira, com uma preciosa primeira-ajuda; o segundo toiro foi pegado pelo Cabo António Alfacinha, que esta temporada se despedirá das arenas, e foi tecnicamente irrepreensível, com todos os momentos da sorte bem definidos e perfeitamente interpretados; e a fechar esta tarde de triunfo, saltou à arena o futuro Cabo, João Pedro Oliveira, que deixou constância de uma grande competência e de um valor insuperável, tranquilizando – como se tal fosse necessário – todos os admiradores deste valoroso Grupo eborense, que, assim, continuará a ser dignamente defendido e valorizado.

Direcção atenta de Agostinho Borges e correctas intervenções dos peões-de-brega de todos os cavaleiros.