O escritor ribatejano Humberto Duarte, natural de Abrantes mas a residir em Santarém, apresentou a 20 de Setembro, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, o seu livro “Um anjo pela metade”.

Professor do ensino básico e secundário, o autor assume que gosta de escrever “desde novo” e que esse gosto advém da leitura: “uma das maiores dádivas que a inteligência humana nos trouxe”.

Como surgiu o gosto pela escrita?

Desde novo que gosto de escrever, embora de forma muito anárquica e despretensiosa, mas o prazer da escrita esteve sempre presente. Contudo, na altura fazia-o apenas para o umbigo, sem perspectivar outros leitores que não eu próprio.

A escrita só surgiu como consequência do gosto ainda mais antigo que nutro pela  leitura, que considero uma das maiores dádivas que a inteligência humana nos trouxe. Não consigo conceber a escrita sem o gosto pela leitura. A necessidade de partilhar ideias e a consciência de que tinha algo para contar às outras pessoas só surgiu mais tarde.

Quais são as suas grandes referências literárias?

Tenho muitas e de diversas zonas de influência, mas o escritor que me tem fascinado de forma mais intensa é o americano Cormac McCarthy. Além dele, admiro outros como o Roberto Bolaño, o Franz Kafka, o Haruki Murakami ou o Philip K. Dick, só para citar alguns. Em Portugal, são incontornáveis o Eça, o Pessoa e o Jorge de Sena.

Acredita que um livro pode mudar a vida de uma pessoa?

Claro que acredito, se assim não fosse não teria escrito este livro. Pelo menos a minha vida já mudou com ele. Um livro pode não mudar radicalmente a vida de um leitor, mas se a sua mensagem, de algum modo, foi absorvida por ele, alguma coisa foi acrescentada a essa pessoa.

O que é que inspirou o livro “Um anjo pela metade”?

Foram muitas as fontes de inspiração, desde as inevitáveis vivências pessoais, a testemunhos do que vou observando no dia-a-dia. No entanto, quis centrar a acção num grupo de pessoas que vive à margem da sociedade padronizada e tentei inocular no protagonista a essência do mal e mostrar como seria viver dentro da sua cabeça. Para além disso, desprovi-o da sua memória mais primordial, pelo que o livro acaba por assentar na busca dessa personagem pelas suas memórias e, no fundo, pela sua própria identidade.

A obra é o reflexo da sociedade actual? Nomeadamente de uma juventude com “sonhos desfeitos”?

Acredito que este livro não esteja muito desfasado da realidade actual, até porque muitas das situações apresentadas entram-nos pela casa dentro durante os noticiários e quase que se banalizaram. A juventude sempre foi problemática, faz parte da sua natureza contrariar o establishment concebido pelos seus antecessores. O que poderá agravar essa situação é a falta de oportunidades ou de objectivos concretos em muitos dos jovens de hoje.

Viagem de sonho?

Talvez à Ilha da Páscoa ou à Patagónia, mas existem inúmeras outras possibilidades.

Género musical preferido?

Não gosto muito de rótulos e os meus gostos musicais são muito abrangentes, mas cada vez gosto menos do universo Pop/Rock e cada vez mais de Jazz e de tudo o que anda à sua volta.

Um título para o livro da sua vida?

Há um que me faz todo o sentido: «O Livro do Desassossego».

Quais os seus hobbies preferidos?

Actualmente a leitura, a escrita, a música, o cinema e de vez em quando dar uma corridinha por montes e vales.

Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria?

A eleição de Adolf Hitler como chanceler alemão, em 1933.

Se um dia tivesse de entrar num filme que género preferiria?

Qualquer filme assinado por David Lynch ou Quentin Tarantino. Se pudesse contracenar com a Scarlett Johansson, melhor ainda.

Acordo Ortográfico. Sim ou não?

Um acordo pressupõe um consentimento de todas as partes envolvidas e isso não se verifica neste caso. Não vou afirmar que sou radicalmente contra, mas não concordo com oitenta por cento das alterações. Há algumas que chegam a ser aberrantes.