O ciclo Nova-Velha Dança, que decorre em Santarém até 17 de Junho, propõe-se trazer “espectáculos referência” da dança contemporânea que se faz em Portugal a uma cidade que esteve “fora desta história”. João dos Santos Martins, jovem coreógrafo e bailarino escalabitano, quis regressar à cidade onde cresceu por sentir que havia aqui “falhas ou faltas”, como se em Santarém “não tivesse acontecido uma história que é nacional”, e propôs ao Teatro Sá da Bandeira um projecto que, desde Fevereiro, tem trazido, todos os meses, espectáculos “que são históricos”, apresentados “num tempo presente”.

Os espectáculos, como o que aconteceu no sábado na Incubadora de Artes (instalada pelo município numa antiga escola primária no centro histórico da cidade), são acompanhados por conversas, para se “pensar o que se faz e vice-versa”, e por oficinas vocacionadas para os mais jovens, como a que decorreu na semana passada, sob orientação de Vânia Rovisco, com alunos do curso profissional de Artes do Espectáculo – Interpretação, da Escola Ginestal Machado.

Ao longo dos quatro meses do ciclo, no Teatro Sá da Bandeira vai crescendo uma “linha do tempo” – “Para uma TimeLine a Haver” -, que resulta de um projecto de investigação sobre o que nos anos 90 do século XX se designou por “nova dança”.

O ciclo “encaixou” num momento de “reflexão” de João Martins sobre este conceito e em que cresceu o interesse pela curadoria, pela “forma como se cria um público ou se pensa um programa”, disse à Lusa o fundador da associação Parasita. “Insistimos na comunicação, na articulação das ideias artísticas no contexto local e na relação com o público. Também insistimos na presença regular dos estudantes e de uma jovem população que não é citadina, não é urbana (o curso da Ginestal Machado tem alunos de vários pontos do distrito), em passar pelas experiências do que é produzir conhecimento a partir destas pessoas”, afirmou.

Os espectáculos apresentados em Santarém são-no “num outro tempo, num outro contexto”, para, “a partir daí, surgirem novas narrativas da dança contemporânea”, acrescentou.

A proposta apresentada por João dos Santos Martins ao Teatro Sá da Bandeira foi, para o director artístico deste espaço, Pedro Barreiro, “uma felicidade”, por se encaixar na perfeição na programação de um teatro municipal que “rompe com algum marasmo, ou com uma falta de oferta em Santarém com coisas que consigam contaminar as práticas” locais. Apesar do escasso financiamento público e das deficiências na divulgação e comunicação, o Sá da Bandeira tem conseguido uma programação “altamente plural, muito diversificada, com qualidade”, mobilizando artistas que interagem com as pessoas da cidade e do concelho, começando a “mexer com as criações locais” e fomentando o aparecimento de novas propostas, disse Pedro Barreiro à Lusa.

Para os alunos da Escola Secundária Dr. Ginestal Machado, o ‘workshop’ com Vânia Rovisco deu “experiência de palco, experiência de interacção com o público”. “Não é só aprendermos uma coisa. Aprendemos, fazemos. Em termos de escola dá-nos mais abertura, mesmo com a cidade, e conhecemos novos artistas, novas técnicas”, disse Anna Taylor, aluna do 12.º ano, à Lusa.

No sábado, pelas salas da antiga escola de S. Salvador, onde decorreram os vários espectáculos, passaram os alunos com “Reacting to Time, portugueses na performance”, trabalhada com Vânia Rovisco com o objectivo de transmitir o trabalho de António Olaio (que participou na conversa final) “Il faut danser Portugal (há que dançar Portugal)”.

Carlota Lagido apresentou (na casa de banho da escola) uma das suas primeiras experiências coreográficas, “notforgetnotforgive”, de 1999, Sónia Baptista levou ao palco do antigo refeitório a peça “Moustachu, Lamento da Mulher não Barbada, ou Ser Mulher é ter Pêlo Onde se Quer”, de 2002, e Daniel Pizamiglio a sua mais recente performance, “Dança Concreta” (2016).

As próximas apresentações do ciclo acontecerão a 16 e 17 de Junho, com Ana Rita Teodoro e Carlos Manuel de Oliveira. A primeira estreia “Palco e Pavilhão”, no âmbito da sua “Colecção Delirar a Anatomia”, e fará a reposição de “Oriffice Paradis” e “Sonho d’Intestino”; o segundo estreia a peça “do desconcerto, por um lado / da aventura, por outro”. Um concerto do pianista Simão Costa assinala o lançamento do seu novo disco.

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