Aproveitando a circunstância de esta edição do Jornal “Correio do Ribatejo” assinalar o 126º aniversário sobre a data da sua fundação, queremos lembrar os tempos idos deste Jornal na defesa e divulgação da Festa dos Toiros na região ribatejana.

Desde o primeiro ano que, sob a irreverente batuta do fundador João António Arruda a informação taurina sempre teve o seu espaço nas páginas do Jornal. A 23 de Abril de 1891 dava-se conta de que o “abastado criador Sr. Emílio Infante da Câmara” já tinha apartados três curros para as touradas de Leiria, em 17 e 18 de Maio, e para a de Sintra, que tem lugar no próximo domingo”. Nesta mesma edição do Jornal se informavam os aficionados de que o exímio toureiro Vicente Roberto se achava doente na sua casa de Salvaterra com uma pneumonia.

Na edição de 28 de Maio de 1891 também se anunciava a corrida que iria abrir essa época na praça de toiros do Campo de Sá da Bandeira, em Santarém, lugar onde a 14 de Junho decorreria outra surpreendente corrida de toiros pertencentes ao abastado lavrador Sr. Comendador Paulino da Cunha e Silva.

Por mera curiosidade, citamos apenas estes excertos de notícias do primeiro ano de publicação do Jornal, então designado da Extremadura, para atestar, se caso fosse necessário, que desde o princípio a Tauromaquia sempre teve um espaço privilegiado na trajectória deste conceituado hebdomadário ribatejano. O que não estranha, naturalmente, pois o Jornal sempre se fez eco dos acontecimentos regionais e a esse tempo as touradas e os festivais tauromáquicos ocorriam com muita frequência, sendo parte substancial das receitas do Hospital de Jesus Cristo, do Asilo dos Rapazes e de outras valências sociais da Santa Casa de Misericórdia de Santarém.

Não seria, assim, de estranhar, a empenhada intervenção do Padre João Rodrigues Ribeiro, então Provedor da Santa Casa de Misericórdia, na construção da praça de toiros instalada nas ruínas do extinto convento de São Domingos, o que corresponderia, a um só tempo, aos objectivos da instituição solidária em não desaproveitar esta fonte de receita e também a satisfação proporcionada, assim, ao tão elevado número de aficionados ribatejanos.

De então para cá, e já lá vão cento e vinte seis anos, sempre o Jornal teve as suas páginas franqueadas a este tema e, particularmente, assumindo importantes causas relacionadas com a tauromaquia, designadamente na construção da nova praça de toiros, nos anos de 1963 e 1964, em que Celestino Graça dinamizou semanalmente a campanha de angariação de fundos, publicando as verbas recebidas e historiando algumas situações, tendentes a sugerir a adesão do maior número possível de ribatejanos.

Evocar estes tempos passa, também, pela lembrança dos principais acontecimentos tauromáquicos que tiveram lugar em toda a nossa região e a projecção que era dada aos toureiros e grupos de forcados que levavam os nomes de Santarém, do Ribatejo e de Portugal a todo o universo taurino. Também neste domínio, a história não pode dispensar a consulta das páginas do “Correio”, pois, as múltiplas referências aqui produzidas constituem quase as únicas informações sobre tão apreciado tema.

O próprio João Arruda, fundador e director do Jornal, assinou algumas crónicas e outros textos informativos, preciosos pelo requinte da sua escrita, nuns casos, ou pela refinada ironia, noutros, evidenciando- se, contudo, o profundo conhecimento do jornalista sobre tão complexa matéria.

A propósito da morte do lavrador e intelectual Carlos Relvas, escreveu João Arruda, no jornal de 27 de Janeiro de 1894, a seguinte passagem, que transcrevemos com a devida vénia: “(…) Só nas praças e circos não tornará a pompear a sua figura gentil; os seus inteligentes corcéis não lhe ouvirão já a voz cariciosa, e nas vastas lezírias do Ribatejo, batidas do sol, envoltas em uma grande auréola de luz vivificante – tantas vezes fotografadas por Carlos Relvas – o touro retinto, de frontal encrespado, nunca mais levantará a cabeça por detrás dos valados vendo-o passar, sempre airoso, sempre jovial. Nunca mais…”

Enfim, folheando cada edição do “Correio” poderíamos recordar, ou ficar a conhecer, algumas das peripécias que preenchem a história taurina de Santarém e do Ribatejo, mas, na impossibilidade de o fazer nesta oportunidade, não queremos deixar de lembrar, com saudade, quantos, de uma forma mais presente, assinaram preciosas crónicas e vívidos testemunhos do que foi e, em parte, ainda é esta tão arreigada tradição na cultura das gentes ribatejanas. João Arruda, Benjamim Jardim, Rosa Mendes, Sabino Caldas, Eusébio Jorge, Henrique José de Oliveira, António Pires, Faustino Ferreira, Celestino Graça, António Cacho, Fernando Castelo Branco, Celso dos Santos Pereira, José Vargas Inês, Eduardo Leonardo, António Alberto Guardado, Casimiro Santos, Manuel Peralta Godinho e Cunha, Francisco Morgado e António Lúcio, foram alguns dos que nos precederam nesta incumbência de manter viva esta chama da afición pela festa dos toiros, alguns com um carácter de maior regularidade, outros, apenas, com alguns artigos ou textos de opinião que o “Correio” acolheu sempre com a maior simpatia e agradecimento.

Cumprindo os desígnios desta tradição, aqui mantemos a secção de Tauromaquia pelo menos até quando sentirmos que os nossos Leitores nos privilegiam com a sua atenção e com a leitura fiel do que aqui vamos deixando escrito. Que venha mais um ano!

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