As crianças, jovens e adultos com condição de deficiência ou com Necessidades Educativas Especiais têm ainda poucas oportunidades para a participação em actividades desportivas, seja com objectivo de prática regular, federativa, competitiva ou apenas para promoção do seu bem-estar pela prática de uma actividade física. Foi neste pressuposto que a Amicale abraçou o projecto Karate para Todos, lançado por Sílvia Duarte e que resulta da “união de duas paixões”

Em que consiste o projecto Karate para Todos?

Apenas Karate. É uma modalidade de excelência que abre portas à inclusão e defende os valores da igualdade. O projecto definiu programas específicos, direccionados e especializados em diferentes vertentes: Prékarate (3 aos 6 anos); Karate Sénior (+65 anos); karate adaptado (condição de deficiência, perturbações ou NEE); Karate Social (vítimas de bulying/violência doméstica, grupos carenciados, grupos de gestão comportamental, alunos em situação de exclusão social), bem como situações específicas de saúde (obesidade, gravidez, condição oncológica, depressão, etc).

A Amicale Karate desenvolve este projecto pioneiro há cerca de três anos. Que balanço faz?

Positivo. Estamos a crescer. Em número de alunos, qualidade de formação de treinadores, espaços de prática pelo distrito e em informação por parte da comunidade.

Os alunos encontram-se totalmente integrados, participam em todo e qualquer evento da associação: demonstrações, exames, campeonatos e eventos. Infelizmente o apoio não chega e ainda existem grupos em regime de voluntariado que nem sempre é suportável por parte da associação.

Quais são, para si, as grandes vantagens do karate adaptado?

O Karate estimula, desenvolve e potencia competências motoras, cognitivas, comportamentais e sociais, promovendo o bem-estar geral para um desenvolvimento físico e psicológico mais saudável.

Tal como qualquer actividade é crucial no desenvolvimento das crianças, o karate é uma modalidade de excelência no campo reeducativo, reabilitativo e terapêutico, ao minimizar o impacto inerente à condição de saúde, as possíveis regressões e progressão, oferecendo estratégias para a aquisição e estimulação de competências.

Como se processam os treinos e onde é que os interessados se podem dirigir para começarem a praticar este desporto?

Os treinos podem decorrer em instituições e escolas de forma a minimizar os encargos, sendo o mestre que se desloca e desenvolve as aulas no contexto dos alunos.

Existem treinos individuais e em pequeno grupo no gimnodesportivo de Santarém, que visam a capacitação das competências para integrar a aula regular; Classe Inclusiva na Escola Mem Ramires de Santarém com treinadores especializados. A selecção da melhor resposta às necessidades do aluno é feita após avaliação de perfil de desenvolvimento. Sempre que possível, é promovida a participação activa da família nos treinos.

Sendo neste momento o karate uma modalidade para-olímpica, a Amicale Karate começa agora a dar também os seus primeiros passos na preparação de atletas para a vertente competitiva. Como tem sido a adesão?

Este tipo de competição existe apenas na vertente de KATA (técnica), não existindo KUMITE (combate). As famílias abraçarama oportunidade. Os miúdos dedicam-se duplamente. A auto-estima, a perseverança das crianças, pais e treinadores são um orgulho para a Amicale. O sentimento de inclusão enalteceu ainda mais o nosso projecto. Muito trabalho há ainda a fazer, ao nível de formação de treinadores e arbitragem, enquadramento de deficiências e modelos de acção, mas o caminho faz-se caminhando. Acima de tudo é mais uma prova que com trabalho tudo é conquistável.

Quando começou a interessar-se pelas artes marciais?

O meu irmão praticava… Desde pequenina que o via treinar, sentada, horas a fio. Quando finalmente os meus pais me deixaram
(acho que sempre desejaram ter a sua princesa no ballet e não em desportos de luta), já “dominava” os primeiros passos (há…25 anos…). Desde então passei por várias etapas de aprendizagem, de competição, de construção pessoal, de ensinamento …

E como chegou ao karate adaptado?

O karate sempre foi uma forma de viver que trazemos a cada passo do nosso caminho. Licenciei-me em Reabilitação Psicomotora e especializei-me em Neurodesenvolvimento em Pediatria. Quando comecei a trabalhar com crianças com deficiência deparei-me com as dificuldades que sentiam em integrar uma modalidade desportiva, pelas limitações de infra-estruturas, por falta de profissionais ou da sua formação, ou por e simplesmente porque “dá muito trabalho”. Basicamente foi isto. A união de duas paixões. O desporto e a terapia.

As minhas crianças. O querer fazer a diferença. Um desafio. A Amicale abraçou o projecto. Os amigos e colegas estiveram lá. As famílias acreditaram. E este projecto ganhou vida. Posteriormente, como formadora e actualmente como membro da Direcção na Federação Nacional de Karate, o karate adaptado ganhou voz a nível nacional.

Lema de Vida?

“Chora enquanto treinas. Ri-te no campo de batalha! Cai sete. Levanta-te oito”.

Um título para o livro da sua vida?

“O caminho faz-se entre o alvo e a seta”.

Viagem de sonho?

Índia.

Livro de cabeceira?

Muitos livros técnicos e artigos, de saúde, terapêutica, educação e desporto. Dezenas de livros infantis (do meu filho). “31 Sonetos” de Shakespeare (e claro o meu ‘O Principezinho’).

Prato preferido?

Tirando toda e qualquer comida da minha mãe, Sushi.

O que mais aprecia nas pessoas?

Valores. Humildade. Perseverança. Sabedoria. Gosto de quem começa por baixo. De quem persiste. Não desiste. Cai, levanta. De quem nos dá a mão. De quem pede desculpa. De quem sorri. De quem ilumina quando passa. Adoro pessoas felizes e inteiras!

O que mais detesta nelas?

Arrogância. Orgulho. Lamechices. Não gosto de coitadinhos. Novelas e “diz-que-disse”. De quem quer colher o que não plantou. Com desculpas para tudo. Com nuvens cinzentas que cobrem o nosso sol. São tóxicas.

Acordo ortográfico. Sim ou não?

Tem dias. Já me habituei, fui “obrigada” a isso. Pelo menos minimizou diagnósticos de “disortografias” (ironia).

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