No Verão de 1917, o jornal O Século noticiava que a Inglaterra pretendia contratar cerca de dois mil trabalhadores portugueses, num período em que a Grande Guerra ceifava as vidas de muitos jovens. Se em Portugal o desemprego imperava, muitos jovens lutavam em África ou aguardavam o recrutamento militar para combater nos campos da Flandres. O mundo rural encontrava-se dividido entre aqueles que procuravam fugir à miséria recebendo salários baixos na execução de trabalhos sazonais e aqueles que aguardavam partir para a Guerra. A pobreza, a fome e a morte apertavam nas praças dos homens ou trabalhadores como nas trincheiras da guerra. Os proprietários assustavam-se com a falta de homens para trabalharem na agricultura, a dificuldade em escoar alguns produtos como os vinhos e o elevado preço dos transportes.

Em resposta à notícia de O Século, um proprietário de Alcanhões e antigo assinante do Correio da Extremadura lamentava- se numa carta a João Arruda: “E a agricultura com falta de braços e os preços a subirem desmesuradamente, a ponto de ainda nas últimas semanas saírem, nesta localidade, a 1$00 e 1$20 diários e os gadanheiros a 2$00 e 3$00! Lembra-se alguém de mulheres ganharem, diariamente, no serviço rural, a $80 e $90! (…) E os governos cada vez mais indiferentes a tudo isto!” (CE, 7/7/1917, p. 1).

Se o preço do trabalho aumentou perante a falta de mão-de-obra, a precariedade levou à contestação. No domingo, 1 de Julho de 1917, ocorreu uma desordem na praça dos trabalhadores de Santarém, situada à época no largo do Seminário. Os trabalhadores recusaram-se a cumprir algumas determinações policiais e provocaram um motim. Alguns polícias foram agredidos violentamente tendo mesmo um disparado contra os populares.

Muitos dos jornaleiros foram presos por atacarem e desrespeitarem a força policial. Perante os factos, o Correio da Extremadura deixava uma questão e uma sugestão: “por que é que a Câmara permite o ajuste dos trabalhadores na praça Sá da Bandeira, tendo tantos locais excêntricos para esse fim? Porque se não há-de fazer a praça, por exemplo, na alameda paralela ao muro do Seminário, no sítio onde existiu o Salão Lisbonense?” (Idem, p. 2).

“Os locais excêntricos do trabalho” deviam permanecer longe do coração da cidade para que esta não se apercebesse das dificuldades inerentes. Afastar o mundo rural para os subúrbios da cidade permitia “tapar o sol com a peneira”.

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CE, 7/7/1917, p. 2

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CE, 7/7/1917, p. 1

Teresa Lopes Moreira