entrevista ultimaAna da Silva coordena, na Escola Superior de Educação de Santarém, o Curso Técnico Superior Profissional (TeSP) de Animação Sociocultural Aplicada ao Ecoturismo. Trata-se de uma formação inovadora que visa formar profissionais para um mercado “estratégico” para a região. Na opinião da docente, há que “apostar no ecoturismo, porque é nele que está o nosso futuro”. 

Na sua opinião, os TeSP vieram dar resposta à vocação do ensino mais profissionalizante dos Politécnicos? 

Os TeSP vêm consolidar o enfoque no saber profissional, na qualificação de natureza profissional, na investigação baseada na experiência.

Como tem sido a receptividade dos alunos no curso que está a coordenar? 

Penso que têm recebido muito bem, embora para os/as trabalhadores/as estudantes com filhos/as pequenos/as não seja nada fácil. No ano passado, os resultados do Curso de Especialização Tecnológica em Animação Sociocultural Aplicada ao Turismo teve resultados muito bons, quase preencheu as vagas e 23 estudantes concluíram o curso com êxito. Logo após o curso, alguns/umas ficaram em estágios profissionais, uma estudante ficou a trabalhar no local onde estagiou, outro foi contratado por um hotel, muitos entraram nas licenciaturas de três escolas diferentes do Instituto Politécnico de Santarém, como por exemplo Desporto de Natureza e Turismo Activo da Escola Superior de Desporto de Rio Maior; licenciaturas de Educação Social, Artes Plásticas e Multimédia da Escola Superior de Educação; Marketing e Publicidade da Escola Superior de Gestão e Tecnologia. Se não tivessem gostado do curso, não teriam decerto permanecido no IPSantarém. Ao contrário desse antigo CET de Animação Sociocultural Aplicada ao Turismo, que preencheu quase a totalidade das vagas, matricularam-se no TeSP Animação Sociocultural Aplicado ao Ecoturismo apenas 15 estudantes. Talvez porque agora este nível 5 de formação se faz em dois anos em vez de um ano (como acontecia nos CET), talvez porque o ecoturismo ainda não atrai tanto como o turismo, talvez por um conjunto de factores ainda por estudar, mas é estratégico apostar no ecoturismo, porque é nele que está o nosso futuro.

Considera que este ciclo de estudos responde às necessidades da região? 

É o primeiro ano de funcionamento destes cursos. Como têm uma duração de dois anos, não existem ainda profissionais no terreno. Não existe ainda nenhum estudo que possa comprovar se este ciclo de estudos vai ao encontro das necessidades da região. Talvez se venha a verificar que isso depende muito do tipo de áreas profissionais (nalgumas áreas os TeSP corresponderão mais às necessidades e potencialidades da região e noutras nem tanto).

O mercado de trabalho terá capacidade para absorver estes profissionais? 

Se houver uma estratégia concertada entre os municípios, as entidades de ensino superior e o tecido empresarial, sim.

Qual é a sua perspectiva acerca do potencial turístico deste território? 

Qual é a minha perspectiva? Temos a Lezíria, o Tejo, o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, tudo aqui tão perto… a uma hora de Lisboa… Ainda na semana passada, fizemos uma expedição de canoagem no Tejo pelas aldeias avieiras com a turma do TeSP Animação Sociocultural Aplicada ao Ecoturismo, foi espectacular! Desta vez, não vimos cavalos a atravessar o Tejo, mas na última que fizemos, foi um verdadeiro espectáculo. É possível ver um pouco disso no filme de divulgação deste curso no site da Escola Superior de Educação de Santarém, é um vídeo de cerca de dois minutos em que se pode ver algumas das actividades que desenvolvemos no curso.

Comparativamente a outras zonas do País, como olha para Santarém em termos de desenvolvimento turístico? 

Olho com alguma preocupação e muita esperança. Preocupação, porque penso que, com o potencial turístico que temos, a região, o município e a cidade de Santarém estão pouco desenvolvidas nesta área. Esperança, porque penso que podemos crescer e tenho tentado dar o meu melhor a este território onde nasci, onde estudei e onde agora ensino e desenvolvo projectos na área da animação sociocultural e das artes plásticas e multimédia. Convido a ver a exposição junto à torre do Complexo Andaluz (patente até ao final de Junho), D. Quixote e a Cúpula Pré (Post) Apocalíptica, de Ilie Duta, um artista plástico romeno que está a tirar o doutoramento. Veio cá numa mobilidade para a Escola Superior de Educação de Santarém e fez esta obra de grande dimensão, no nosso ateliê de escultura, que orientei no quadro do Projecto Arte na Rua. Estou a tentar ver, com a Câmara Municipal de Santarém, a possibilidade de expor a obra na cidade, embora a ocupação do espaço público seja sempre algo difícil de negociar. Esta obra foi realizada graças ao apoio da Resitejo que forneceu colchões, cuja parte de metal serviu para fazer a cúpula gigante, e ecopontos com que se fizeram os moinhos de vento. É nisto que eu acredito, a articulação da arte e ecologia, da animação e ecoturismo, do regional com o internacional. Quatro estudantes do TeSP de Animação Sociocultural Aplicada ao Ecoturismo já participaram este ano em actividades na Holanda e na Turquia no quadro de um projecto financiado Erasmus + KA2.

Considera que foi benéfico para o Ribatejo integrar a Região de Turismo do Alentejo? 

O Ribatejo é um território com uma identidade cultural, biogeográfica e socioeconómica muito própria e não sei se os/as ribatejanos/as se identificam com o Alentejo e vice-versa. Se for turista e procurar no Google “região de turismo do ribatejo” aparece-lhe “Turismo do Alentejo e Ribatejo. Se colocar “região de turismo do Alentejo” aparece-lhe “Turismo do Alentejo”. Assim, numa pesquisa rápida, o Ribatejo parece perder-se de vista nos montes alentejanos. Claro que há vantagens e desvantagens em juntar Ribatejo e Alentejo, não há soluções perfeitas, mas honestamente não sei ainda avaliar o que é melhor para ambos.

O País tem licenciados a mais, ou emprego qualificado a menos? 

O país não tem licenciados/as a mais nem emprego a menos. O que o país tem, como todos os outros (uns mais do que outros, é certo) são riqueza e oportunidades muito mal distribuídas.

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