Nelson FerrãoVira que não vira o movimento folclórico vai sendo presenteado por solavancos no seu seio que deveriam criar menos incerteza e garantir mais confiança às práticas de cada grupo folclórico.

No final do ano passado, as avaliações dos ranchos folclóricos filiados na Federação do Folclore Português (FFP) foram motivo das conversas de cada um dos interessados na vida desta Federação e do movimento em geral.

 No afinco de procurar a excelência do “folclore português”, a FFP pretende uma separação do “trigo do joio” que até agora tem sido uma guerra perdida, nas diferentes tentativas já feitas. E deve continuar a sê-lo, se não houver alterações…

Este é um assunto que é uma casca de banana. E a FFP e os ranchos folclóricos não têm sabido fazer o que deve ser feito para a defesa da etnografia e do folclore. Foi assim com a falta de estudo e de leituras nacionais e estrangeiras sobre o fenómeno do folclore, foi também com a recusa de entender o folclore das décadas mais recentes, foi assim com as estrelas de classificação dos ranchos, parece ser agora também com a última avaliação dos ranchos seus associados, em termos nacionais…

Neste jornal temos dado conta de um mal-estar nalguns ranchos federados na FFP, mas parece haver muitos medos para tratar este assunto (tal como outros) de forma aberta e transparente.

Abertura e confiança precisam-se! Mesmo que se reduza o número de filiados.

Neste processo perceberam-se ausências de enquadramento, informação e confiança. Perceberam-se datas desconexas, grande desfasamento de respostas a perguntas solicitadas, os critérios deveriam ser melhor explicados, percebe-se mal o contexto etno-antropológico em que se insere este tipo de avaliação dos ranchos, risco elevado de diferenças nos critérios de avaliação entre cada um dos Conselhos Técnicos Regionais (CTR), de Norte a Sul, para o mesmo objeto de análise ou item em avaliação.

Bem, se isto for razão para o “estado a que isto chegou”, então rapidamente devia interessar aos CTR e à FFP, a abertura de um novo ciclo estruturado e sistemático de conhecimento mais realista das tradições folclóricas e dos enganos que giram à sua volta. Por isso, devia ser mais apropriado:

– Comunicar a cada grupo as qualidades dos critérios e esclarecer as nuances que eles podem colocar aos argumentos que cada rancho tem como inquestionáveis, desde há muito tempo… É o mínimo de transparência e de confiança…

– Construir uma base regional de conhecimento folclórico, aproveitando esta iniciativa para inventariar os vários elementos etnográficos e elencar numa grelha os conhecimentos, por vezes contraditórios, que se forem conseguindo sobre cada um.

E para isto os CTR deveriam ter um papel fundamental para a orientar estes objetivos. De resto, o CTR Ribatejo deve ser dos mais bem apetrechados a nível nacional para desenvolver este tipo de trabalho, conhecendo-se as reflexões que por aqui vamos fazendo. Mas não podem ser os CTR de um lado e os Ranchos do outro. Não! Têm de estar todos do mesmo lado, colaborantes e francos nos mesmos objetivos

As entorses que se constatam têm de ser colmatadas de repente, até para crédito dos CTR. Isto é: por exemplo, um rancho mais representativo (tipo suf +) está misturado com a mesma avaliação de um rancho que tem um trabalho menos representativo (tipo suf -). Isto é muito discriminador para quem fez algum trabalho e deveria haver cuidado com este tipo de apreciações. Ah, e percebe-se mal (ou ainda não foi explicado…), porque estes tipos de ranchos estão no mesmo patamar de satisfatório, quando um é mais representativo e o outro sabemos que nem por isso.

Com isto, este processo de avaliação está a produzir consequências nefastas em que alguns grupos já não querem permutas com outros de avaliação satisfatória, mas de representatividade bem melhor e que já estão a ser discriminados, porque não estão na avaliação de BEM.

Mas há ainda uma outra situação relacionada com os avaliadores dos CTR e com os avaliados. Alguns destes não reconhecem as capacidades dalguns avaliadores que, percebe-se, podem estar a beneficiar os seus grupos (donde são oriundos), quando avaliam os defeitos dos outros, mas não valorizam os mesmos erros nos seus próprios grupos.

Para evitar este tipo de incertezas e de dúvidas (quais telhados de vidro…) deviam ter-se criado critérios âncora, alicerces, enquadramentos antropológicos por onde se guiariam todos – os avaliadores e os avaliados… e, aparentemente o que foi feito não garantiu totalmente este objetivo.

Por isso, apesar destas anomalias, sugerimos que os ranchos folclóricos não se preocupem demasiado com as suas avaliações não correspondidas.

Em vez disso, façam antes o trabalho que a FFP e os CTR deveriam incentivar, com guiões práticos, mas não o fazem. O caminho deve ser menos de fiscalização e mais de estímulo ao trabalho etnográfico ativo que cada rancho deve possuir para se apresentar com um credível projeto cultural e de animação da sua comunidade.

Por isso, os ranchos devem preocupar-se sempre com as recolhas, mesmo as atuais, os levantamentos desde as danças até à gastronomia, criar um PROJETO. Vão para o terreno!

Leiam mais, conversem melhor e (re)produzam novas práticas com base nos conhecimentos adquiridos por estas formas. Ah, e coragem para divulgar as vossas avaliações…

O resto, são assuntos banais com pouco interesse para o essencial que é preciso fazer. Não se preocupem com o acessório…

O que é isso? Bem, vamos debater outras qualidades e construi-las com a mesma energia que agora existe… nem mais nem menos!

 Humberto Nelson Ferrão

nelson.ferrao@gmail.com

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