Nelson FerrãoJá passaram 10 anos. Foi em 19 de Março de 2004. Foi feita a inauguração do remodelado Teatro Municipal Sá da Bandeira, na presença do Ministro da Cultura, Dr. Pedro Roseta (que inaugurou também nesse dia o Teatro Municipal de Vila Real) e do Presidente da Câmara Municipal de Santarém, Eng. Rui Pedro Barreiro.

Foi um ano de dupla celebração: Com as habituais Festas do Município, Dia de S. José, Feriado Municipal, inaugurava-se também um novo espaço de cultura, com funções e condições que o concelho nunca tivera antes. E desde 1997 que se esperava por este tipo de equipamento cultural, que passou a ser projeto de recuperação, em 2001, e que só uma disputa jurídica veio a retardar a sua concretização.

Com este novo espaço surgiu também uma grande expetativa para que ele fosse uma âncora para a qualificação do desenvolvimento cultural e artístico do concelho e para o próprio Centro Histórico.

E o modelo criado manteve essa preocupação em metade do seu percurso. Todas as valências e todos os recursos foram preparados para dar resposta e atingir esse objetivo multiplicador e diversificador.

Santarém ficava com uma sala de espetáculos com 201 lugares sentados (mais 2 para cadeira de rodas) modernamente equipada, permitindo ainda a projeção vídeo e condições para a realização de conferências e reuniões, incluindo tradução simultânea.

Ficava também com uma Sala Estúdio/sala de ensaios, polivalente, dedicada à formação de públicos, para acolher pequenos cursos, workshops ou, até, ensaios de grupos artísticos; no piso de entrada foi previsto um Bar-Galeria, de livre acesso ao público, condição também para o funcionamento permanente de 12 postos de acesso destinados aos navegadores da Web, no espaço de Cibercafé; ainda se ganhou um espaço de Piano-Bar de livre acesso, dedicado à formação de públicos, que permite a realização de atividades mais informais: audições musicais, serões de poesia, conversas com autores, entre outras atividades.

O concelho ganhou ainda novas condições técnicas com este equipamento: sistema de som e sistema integrado de vídeo disponível em várias zonas do TSB; um sistema de comunicações áudio interno entre a cabina técnica, o palco e os camarins, e todo o edifício estruturado com pontos de acesso à Internet.

Por ouro lado, as obras vieram desvendar mais uma novidade arqueológica para a cidade: uma cisterna com nascente de água debaixo da plateia da Sala de Espetáculos, ao nível do Sub-Palco, com cerca de 1 metro de água de altura, estimando-se que a sua utilização tenha feito parte do espaço do Antigo Hospital de Jesus Cristo.

Ora, foi tudo isto que o concelho e a região ganharam para a apresentação de ações artísticas elaboradas e de qualidade que vieram interpelar o olhar dos scalabitanos e possibilitar novos horizontes e contraposições estéticas que o concelho nunca tinha tido.

A talhe de foice, devemos relembrar que, logo na inauguração a 19/3/2004, o mote foi lançado. As 3 principais áreas artísticas foram apresentadas, através de vários tipos de espetáculos, para garantir a versatilidade do equipamento: o Teatro, pelos grupos de teatro do concelho, a Música, com Rão Kyao e a Dança com a Companhia de Bailado de Alexey Fokine.

Para prosseguir estes objetivos, para além dos apoios financeiros, foram definidas regras de programação que se aperfeiçoaram ao longo do tempo e que, embora possam ser discutíveis, tiveram a virtude de ir credibilizando e reforçando, cada vez mais, a ligação do TSB, enquanto equipamento âncora cultural, junto do público scalabitano, atingindo, em 2009, o máximo dessa expressão, com um total de 32719 espetadores, com dificuldades de repetição (ver quadro).

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A programação encetada até 2010 revelou-se assim moderadamente expansiva, mas com oportunas incursões a estéticas que questionassem os cânones vigentes, quando possível, dentro da regularidade e diversidade necessárias à divulgação das artes de palco (Teatro, Dança, Música, Novo Circo, Poesia, Pluridisciplinares…), além de exposições e do chamado “Mercado Assistido à Criação Local” (produtores culturais locais), quer na sala principal, quer no próprio Bar do Teatro, onde se permitiu a elevada visibilidade dos projetos emergentes que uma nova geração de criadores começava a apresentar à cidade. A esta lógica juntou-se também a presença do cinema no TSB, qual recuperação cineclubista, quer para adultos, quer para os mais jovens.

A propósito, destaque-se que os jovens em idade escolar, de todos os graus de ensino, foram objeto de um projeto muito singular “A escola vai ao Teatro” – originário do TSB, com o aproveitamento de recursos acima da média – que consistiu na presença de todos os alunos do concelho, em alguns anos, assistirem a pelo menos um espetáculo durante o ano letivo. Foi um esforço para o início de um percurso de formação de públicos, regular e consistente, previsto para ter uma outra longevidade e que não teve semelhança a nível nacional.

Ora, logo de início foi dada a tónica do que seriam as expetativas futuras, facto que se desenvolveu nos primeiros anos, com muitos artistas estrangeiros a (des)inquietar Santarém, para além dos diferentes projetos programáticos de cooperação em rede com outros Teatros, nomeadamente no âmbito da Artemrede – Teatros Associados (16 Teatros), da Cultrede (22 Teatros) e também das parcerias com Festivais Internacionais: o FITIJ – Festival Internacional de Teatro para a Infância e Juventude / Teatrinho de Santarém, o Festival Sementes / Teatro Extremo (Almada) ou o Festival PANOS, promovido pela Culturgest (Lisboa), FITEI (Porto), Feria de Teatro de Ciudad Rodrigo (Salamanca/Espanha)… sem esquecer as tímidas co-residências artísticas e os vários projetos de coprodução ou coorganização a que os laboriosos e escassos recursos humanos tiveram de acudir…

A partir de Agosto de 2010, este tipo de ações regulares e consistentes foram modificadas. O TSB passa então para a gestão da Cul.tur – Empresa Municipal de Cultura e Turismo E.E.M. (criada em 24 de Junho), que teve como única detentora de capital a CMS e sede neste Teatro,

Porém, após Setembro de 2012, fruto da fusão de três das empresas municipais (Cul.tur, STR-Urbhis e Scalabisport), o TSB passa a ser gerido pela Viver Santarém – Sociedade de Cultura, Desporto, Turismo e Gestão Urbana de Santarém, E.M, S.A.,

As novas condições de acolhimento e de produção artística, as dificuldades financeiras e as novas orientações empresariais, com outra racionalidade económica, criaram uma relação com este equipamento que se pode aferir pelos valores do público e de ações expressas no quadro abaixo, apesar de serem indicadores a necessitar de outros para se analisarem em melhores condições o que foram estes primeiros 10 anos de vida do moderno e pequeno TSB, que é também, claramente, uma parte da vida dos scalabitanos.

Humberto Nelson Ferrão

nelson.ferrao@gmail.com