Maria Emilia Vaz PachecoEm 25 de Maio findo, foi entregue na Fundação Calouste Gulbenkian o prestigiado Prémio Vasco Vilalva ao Museu Diocesano de Santarém, em reconhecimento do trabalho exemplar de obras levadas a cabo pela Diocese, no âmbito da Rota das Catedrais e no domínio da recuperação e conservação da Sé Catedral e do património móvel. No acto foi sublinhada a importância e abrangência do património recuperado, tal como o “resgate da perda iminente de um conjunto de peças de arte sacra” incorporadas no acervo do museu, com recurso a critérios e metodologias de grande rigor nas intervenções.

Numa sala repleta, e entre os presentes, encontrava-se o Presidente da Câmara Municipal de Santarém e todos tiveram oportunidade de constatar a responsabilidade e o desafio que foram lançados sobre todos os scalabitanos, com óbvio destaque para quem aceita o compromisso de governar o município, em conformidade com a própria definição do poder local. Santarém deve honrar as suas responsabilidades, cumprindo a obrigação de dinamizar e de dar visibilidade ao imenso potencial turístico-cultural, designadamente patrimonial, monumental, paisagístico, artístico e cultural em geral, incluindo naturalmente o Museu Diocesano, a Casa-Museu Passos Canavarro, a Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire, o esquecido Museu do Tempo e o riquíssimo espólio que integra a Reserva Municipal.

Exactamente 48 horas depois da entrega do Prémio, realizou-se no Palácio Landal uma “Sessão Participativa” intitulada “Encontra-me em Santarém – O papel dos cidadãos na revitalização dos centros históricos”. Mesmo que a terminologia tenha sido apresentada no plural, a causa do Centro Histórico de Santarém motivou larga participação do cidadão comum. Sendo assunto gasto e debatido em anteriores executivos, parecem óbvias as ilacções decorrentes de tão inusitada reacção dos residentes e utentes do Centro Histórico (CH), traduzindo a situação-limite a que se chegou, na realidade incontornável de desinvestimento no casco antigo. Em consequência, incorre-se no perigo de o CH passar de abandonado a desaparecido, como transmitido pelos testemunhos de vivências do quotidiano.

Deveras lamentável a gestão do tempo concedido aos que quiseram fazer ouvir as suas experiências e propostas concretas – as últimas nem sequer chegaram a ser enunciadas, ficando-se pelo diagnóstico das situações – quando os dois vereadores que compareceram em representação do Município não usaram para os respectivos discursos de tempo cronometrado e, ainda mais grave, com referências directas a conteúdos de alguns dos participantes, coarctados no seu direito ao contraditório e impedidos de rebater argumentos não só polémicos como até alheados da realidade, mais a mais quando o trabalho exigido pelo CH terá que envolver futuros responsáveis políticos, para além do actual executivo, com meio mandato cumprido. Questões como o respeito pelo exercício da cidadania, o pagamento da taxa de IMI mais alta do País ou as exigências de um trabalho básico de limpeza e de desinfestação – estas últimas manifestamente deficitárias, se não ausentes, em muitos dos locais do CH e da cidade – todas estas questões não se compadecem com decisões de marcação de uma nova sessão “para daqui exactamente a um mês”, e mesmo isso por insistência dos cidadãos, queixando-se de falta do tempo concedido.

Sendo certo que a crise tem servido para justificar tudo, até o que muitas vezes é elementar em termos de saúde pública e de segurança, os residentes, comerciantes, utentes ou turistas do CH têm direito a exigir um programa sério, exequível e eficaz para a área antiga – muito mais do que um plano de intenções com cujos conhecidos princípios toda a gente genericamente concorda –, um documento apartidário, discutido civicamente e direccionado para um processo de continuidade, transversal a diversos executivos, um trabalho de combate aos múltiplos obstáculos que se evidenciam no terreno, desde a progressiva recuperação do imobiliário (que será feito da Sociedade de Reabilitação Urbana tão invocada pelo anterior executivo?), exigindo candidaturas a fundos comunitários para áreas abrangentes do CH e não apenas candidaturas avulsas e sem evidências de uma estratégia programaticamente definida, privilegiando a revitalização e incentivando a adesão dos diferentes interesses envolvidos.

Porque sempre fui avessa a lançar propostas apenas para dentro dos gabinetes, passada mais de metade do 1º. quartel do século XXI, a caminho de meio século do derrube de um regime autoritário, faz todo o sentido que, com toda a celeridade, se realizem amplos debates, com livre participação dos cidadãos. Socorrendo-me deste espaço de liberdade que é o Correio do Ribatejo, aqui registo algumas sugestões, também como contributo para a defesa da identidade cultural ribatejana e enquanto cidadã que não se demite das responsabilidades inerentes a mais de década e meia na Direcção da Associação de Defesa do Património de Santarém (AEDPHCS), cuja participação parece andar arredada destes meios:

– Elaboração de um programa cujas linhas estratégicas legitimem uma exploração regrada do CH, dando-lhe visibilidade e sustentabilidade, com discussão pública;

– Definição de uma marca turística destinada a afirmar Santarém e a potenciar os seus recursos histórico-culturais, artísticos e paisagísticos como, por exemplo, “Santarém celebra memória”;

– Constituição de uma Comissão de Turismo, com carácter consultivo, onde tenham assento os agentes culturais, representantes do Turismo de Portugal, responsáveis de Museus, operadores turísticos, Associação Portuguesa dos Guias Intérpretes, comércio tradicional, forças de segurança e alguns cidadãos de mérito cultural reconhecido, direccionada para acompanhar o desenvolvimento do Turismo;

– Celebração de protocolos, parcerias, etc., entre a Autarquia, operadores turísticos, museus nacionais e internacionais, Associação Portuguesa dos Guias Intérpretes, Diocese de Santarém, visando a captação de públicos renovados, a realização de permutas de objectos artísticos, etc.;

– Promoção das rotas turísticas já existentes, tanto no domínio do Turismo Cultural como Religioso e Vitivinícola, e criação de outras rotas, como a original rota da tumulária, implicando tão só a afectação de uma parceria com a Diocese, de modo a garantir o acesso à riquíssima tumulária existente nas igrejas da cidade e na Reserva Municipal;

– Investimento na rede de museus já existentes, revitalização do Museu do Tempo, reactivação do Museu Militar, criado por Salgueiro Maia na EPC, e do Núcleo Ferroviário da Ribeira, para alargamento da oferta cultural;

– Animação do CH assente numa estratégia de visão não só local (com recurso, por exemplo, a concursos de bandas, festivais de cinema honrando uma marca regional como o Tejo ou a Vida Agrícola), mas de alcance nacional, incluindo Festivais de Música Sacra / Erudita, aproveitando o potencial de Órgãos Históricos existentes e eventos musicais dirigidos à juventude e a públicos mais abrangentes, aproveitando as belíssimas escadinhas de ligação da Escola Secundária Sá da Bandeira à Ribeira;

– Celebração de protocolos com universidades europeias de referência, tendo em vista a captação de estágios universitários em instituições culturais da cidade, como já sucede com a Santa Casa da Misericórdia e o Brasil, por intermédio do historiador Magno Moraes Mello;

– Fundação de uma Escola de Artes e Ofícios Tradicionais, através de verbas comunitárias, cuja formação de calceteiros, canteiros, etc., auxiliaria na recuperação do CH;

– Alavancar a Casa do Brasil para captação de Turismo nos antigos espaços ultramarinos de língua Portuguesa;

– Recuperar o Festival de Gastronomia na óptica de Património Nacional;

– Articulação com outros municípios ribeirinhos do Tejo, tendo em vista a realização de eventos turísticos no Tejo;

– Preparar a autonomização de uma instituição vocacionada para a promoção do Turismo do Ribatejo, reivindicando a identidade específica da marca RIBATEJO e forçando o seu reconhecimento nacional.

Santarém merece e exige muito mais!

Maria Emília Vaz Pacheco

*Texto publicado na edição impressa de 05 de Junho

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