A efeméride era suficientemente importante para justificar a lotação esgotada que a Praça de Toiros do Campo Pequeno
registou na passada sexta-feira, dia 18 de Agosto de 2017. De facto, cento e vinte cinco anos sobre a data de inauguração deste tão consagrado tauródromo é um lapso de tempo tão significativo pelo incomensurável contributo dado à história da tauromaquia mundial que não era caso para menos. O público aficionado que habitualmente marca presença na primeira praça do país não defraudou as melhores expectativas e para que a festa fosse ainda melhor até a TVI – que há alguns anos andava afastada das transmissões televisivas – apercebendo-se que a RTP está em rota de afastamento da Festa Brava, aproveitou esta oportunidade e regressou às transmissões, o que lhe valeu uma excelente posição ao nível das audiências. Como diz o povo, quando uns não querem, estão outros desejando…

O programa montado pela empresa do Campo Pequeno foi aliciante e constituiu um interessante aperitivo para uma corrida séria, com momentos de melhor expressão e outros menos conseguidos artisticamente, mas correspondendo ao que se esperava de todos os intervenientes no cartel, que justificaram positivamente a opção da empresa.

Em praça estiveram os cavaleiros João Moura, António Ribeiro Telles e Luís Rouxinol, os Grupos de Forcados Amadores de Montemor e de Lisboa, capitaneados, respectivamente, por António Vacas de Carvalho e Pedro Maria Gomes, e os toiros pertenciam às ganadarias de Vinhas, David Ribeiro Telles, Oliveira Irmãos, Murteira Grave, Palha e Passanha. Os toiros, que em regra estavam muito bem apresentados, em tipo com as respectivas divisas, tiveram comportamentos díspares, sendo mais colaborante o de Palha e mais difícil o de Oliveira, Irmão.

Os três cavaleiros em praça têm reconhecidos méritos para enfrentar todo o tipo de circunstâncias, o que fizeram de forma bem expressivas, sendo que os que tiveram a sorte de lhes tocar toiros com melhores condições de lide não os desperdiçaram e quando os toiros saíram mais adversos também não se deixaram fracassar por isso, esgrimindo os seus bastos argumentos técnicos.

Obviamente, o brilho artístico não poderia ser o mesmo, porém,
os bons apreciadores de toureio equestre devem avaliar sempre as prestações dos cavaleiros em função dos seus oponentes. João Moura, a quem a tauromaquia deve para todo o sempre um contributo dos mais importantes pela inovação de conceitos de toureio, suportados em diferentes distâncias e andamentos em relação ao que até então se praticava, não dispôs de matéria-prima de qualidade para triunfar, mas, em pequenos detalhes e na vontade indómita que sempre evidenciou, deu prova de que continua pujante de faculdades e de acrescida experiência, tendo, por isso agradado ao respeitável, que o aplaudiu com inteira justiça em algumas sortes exuberantes e alguns inspirados adornos.

António Telles continua na plenitude das suas imensas faculdades técnicas e, mantendo-se fiel ao estilo clássico que sempre cultivou, proporcionou duas lides de elevado quilate, quer frente a um toiro
mais reservado e difícil, que soube superar em sortes de muito mérito, quer frente ao melhor toiro da corrida, um Palha, que lhe permitiu abrir o compêndio e explanar uma lição de mestre, elegendo os melhores terrenos, adequando o andamento das suas montadas e colocando a ferragem em sortes da maior correcção e risco. Cada toiro tem a sua lide, como tantas vezes ouvimos dizer, porém, a maioria dos toureiros persiste em aplicar a mesma mezinha a todos os toiros, exibindo as sortes ensaiadas em casa e os números bonitinhos da sua cavalaria, o que, obviamente, nem sempre resulta. António Telles, pleno de saber e de valor, não embarca nessa estratégia, e ainda bem!

Luís Rouxinol teve azar com o sorteio, tendo o seu lote sido o mais complicado, todavia, mercê dos seus imensos recursos, pôde agradar ao conclave, especialmente frente ao último, de Passanha, perante o qual bregou com desenvoltura e bom gosto, mexendo bem com o toiro e cravando vistosa ferragem, rematando a sua lide com uma série de palmito, par de bandarilhas e sorte de violino que empolgou o respeitável que tanto aprecia o honrado e valoroso marialva de Pegões.

As pegas, cometidas a dois dos mais conceituados Grupos de Forcados resultaram emotivas e valorosas. Pelos Amadores montemorenses foram solistas Francisco Bissaia Barreto, que consumou rija pega à segunda tentativa, Francisco Borges, que resolveu a papeleta ao primeiro intento, e Manuel Ramalho, que, apenas, à terceira tentativa, e em sorte mais carregada, concretizou a sua pega. Pelos Amadores lisboetas Martim Lopes e João Varanda consumaram boas pegas ao primeiro intento, enquanto Duarte Mira apenas logrou concretizar a sua sorte ao terceiro intento.

Na direcção da corrida esteve com acerto Pedro Reinhardt, assessorado pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva, e campinagem e peões-de-brega estiveram em bom plano.