Vitor Serrão2A igreja do antigo Convento de franciscanos do Sítio, hoje do Hospital de Jesus Cristo, pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Santarém, oferece à admiração dos visitantes uma série de valências artísticas dignas de nota. Uma delas é o monumental retábulo pétreo, de estilo maneirista, que se encontra na parede fundeira da capela-mor e que enquadra uma gigantesca tela seiscentista figurando São Nicolau de Tolentino em êxtase místico. O templo, de austera arquitectura ‘chã’, possui outras obras de arte que reclamam a maior atenção: o revestimento fresquista em perspectiva ilusionística do tecto do sub-coro, da autoria do pintor António Simões Ribeiro (1723), os altares provenientes do desmantelado mosteiro de Santa Clara, e ainda, anexa à banda do Evangelho, a notabilíssima Capela Dourada da Ordem Terceira franciscana, um espaço barroco integralmente recheado de talha dourada, imaginária estofada, azulejaria azul e branca e um ciclo de telas do fim do século XVII ou início do século XVIII. Tudo recomenda, pois, uma demorada visita ao templo, um dos valiosos monumentos do Centro Histórico da cidade.

Destaca-se hoje o imponente retábulo da capela-mor, obra das primícias do século XVII. Esclarecido está que não pertencia a esta igreja e que não esteve sempre aqui, pois veio da antiga capela de São Nicolau Tolentino, sita no transepto da igreja dos frades agostinhos da Graça. Depois das obras de restauro dessa igreja gótica, promovidas pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais nos anos 50 do século passado, o altar e a tela foram retirados para beneficiação até que, em data mais recente, houve condições para que fossem finalmente recolocados na capela-mor onde se encontram. É da maior justiça realçar o papel tido pelo Engº Zeferino Sarmento (1893-1968) na defesa da proposta para que o altar e a tela fossem instalados na igreja do Hospital, a seguir ao restauro ‘purista’ da igreja da Graça, impedindo assim que ficassem sem utilização cultual. O tratamento da grande tela, que estava em péssimo estado de conservação e permaneceu durante anos enrolada no coro da igreja da Misericórdia, coube a outro ilustre personalidade da cultura da cidade, o Prof. Américo Marinho (1913-1997), que a recuperou com sensibilidade e competência, provendo a sua instalação no novo espaço.

Altar e tela têm uma história que muitos escalabitanos ignoram e que precisa de ser lembrada. Ambos faziam parte da capela funerária de D. Gil Eanes da Costa (1543-1612), situada no transepto da igreja da Graça, não longe do túmulo de Pedro Álvares Cabral. O nobre encomendante foi um ilustre político da capital: Presidente do Senado da Câmara de Lisboa, membro do Conselho de Estado filipino, Provedor da Misericórdia de Lisboa e do Hospital de Todos-os-Santos, comprou em 1590 uma capela no mosteiro dos gracianos de Santarém, com seu morgado, para que servisse de panteão funerário para si e os seus. A traça da capela correu por responsabilidade de arquitecto lisboeta de fama, crê-se que o arquitecto régio Pedro Nunes Tinoco, ainda que sem absoluta certeza por falta de base documental segura. Já a pintura (que andou erradamente atribuída a pincel italiano, e mesmo, por algumas fontes oitocentistas, a Josefa de Óbidos !) tem autoria certa, estabelecida por análise estilística e por contraprova de arquivo. De facto, conhece-se o contrato de quitação da sua factura e o altíssimo preço (160.000 rs) que envolveu, apurando-se que foi pintado entre 1603 e 1606 por Diogo Teixeira (c. 1540-1612), um dos melhores mestres pintores de Lisboa. O arrastamento da obra ao longo de três anos deveu-se, por certo, não só a delongas no lavor pétreo da capela mas, também, às excepcionais dimensões exigidas por D. Gil Eanes para o quadro da sua capela funerária.

A grandiosa tela representa São Nicolau Tolentino em êxtase místico, e mostra as potencialidades artísticas do seu autor. Diogo Teixeira era, à época, um dos mais considerados pintores da capital. Fora pintor da casa de D. António, Prior do Crato, e muito respeitado como artista de condição liberal. Neste painel, ele representou o santo agostinho a rezar junto a um altar com a imagem de Jesus Cristo, de joelhos assentes sobre um notabilíssimo tapete persa do tipo ‘Kashan’ – esse, por certo um dos muitos objectos orientais que existiam nos aposentos do encomendante. Na metade superior da tela, em visão sobrenatural, uma imensa glória de anjos cantores dá testemunho do acontecimento milagroso.

Tudo é pintado com largueza, e existem cuidados de detalhismo nos pormenores, caso da representação do citado tapete exótico, o qual, como bem observou a historiadora de arte Jessica Hallett, corresponde a uma raríssima tipologia de tapetes asiáticos; este foi, de resto, um dos primeiros desse género que se representou em pintura na Europa, o que confere ao quadro de Santarém uma valia muito particular. Aliás, o modo como é representado recorda muito, nas cores e no desenho geométrico, um outro tapete ‘Kashan’ que se expõe hoje no Museu Machado de Castro em Coimbra. O pintor tomou modelo, por certo, num exemplar dessa tipologia existente na casa de D. Gil Eanes da Costas.

A pintura de Diogo Teixeira, de cuidada cenografia barroca, com figuras e acessórios de bom desenho naturalista e a referida e muito arrojada glória celestial a ocupar a metade cimeira, revela o gradual abandono dos modelos maneiristas por parte do mestre (já idoso à data da encomenda), e a nova sedução que lhe inspiravam os cânones proto-barrocos, acaso por influência de modelos de Sevilha. Os retábulos dispostos em andares e formados por fiadas sobrepostas de painéis deixavam paulatinamente de ter preferência nos mercados, dando lugar aos de «pala» única a ocupar a totalidade do vão. Por tudo isso, o São Nicolau Tolentino em êxtase místico é não só uma das mais importantes pinturas portuguesas do início do século XVII (por curiosidade, uma das primeiras em que a tela substitui a madeira como suporte retabular), como aquela em que melhor se manifesta uma espécie de «barroquização» dos princípios estéticos ainda dominantes. O velho maneirista Diogo Teixeira, em final de carreira, orientava-se afinal por um inteligente esforço de actualização dos seus repertórios, e é esse carácter refrescante e moderno que a tela da igreja do Hospital de Santarém oferece – razão maior para que altar e tela mereçam uma visita mais demorada.

 

Vitor Serrão

s. nicolau tolentino 1603