Paulo Caetano e AplaudirPaulo Caetano é uma figura imensa do toureio equestre! Como acontece com todos os toureiros, nunca foi consensual o reconhecimento do seu mérito e do seu prestígio, porém, é inquestionável a sua valia técnica bem assim como a sua competência profissional. Insuperável em classe, dentro e fora da arena, Paulo Caetano  construiu uma carreira sustentada em centenas de triunfos, integrando os principais cartéis de cada temporada e, naturalmente, projectando-se ao mais elevado patamar da galeria taurina nacional.

Há pouco mais de trinta e cinco anos – 15 de Junho de 1980 – a Monumental “Celestino Graça” foi o cenário escolhido para a cerimónia de alternativa, apadrinhada por D. José João Zoio e testemunhada por Manuel Jorge de Oliveira, numa memorável corrida TV em que foram lidados toiros da prestigiada ganadaria Palha, superiormente pegados pelo Grupo de Forcados Amadores de Santarém, ao tempo capitaneado por Carlos Empis. Rezam as crónicas de então que esta foi, de facto, uma das corridas que marcou essa importante temporada taurina, para mais com a sorte de haver sido transmitida pela televisão.

Desta feita, as praças de Portalegre, a 4 de Julho, e da Moita do Ribatejo, a 17 de Setembro, foram as escolhidas para a comemoração do 35º aniversário de tão brilhante alternativa, enquanto a Monumental “Celestino Graça” ficou esquecida, mau grado que a empresa concessionária dos tauródromos moitense e escalabitano seja a mesma, a Aplaudir, Lda., pelo que não se compreende como esta celebração não ocorreu em Santarém. Ou talvez até compreendamos, mas, obviamente, não deixemos de lamentar…

A Monumental “Celestino Graça” tem vindo a perder importância no panorama taurino nacional em consequência da gestão operada pela empresa concessionária, após algumas temporadas em que, artificialmente, foi alcandorada aos píncaros, com a série de “praças cheias” devido aos preços políticos dos bilhetes e à generosa oferta de milhares de ingressos. O efeito perverso dessa acção não poderia deixar de se fazer sentir e eis-nos, agora, em fase de travessia do deserto com os principais cartéis a serem apresentados para outras praças e Santarém, na capital da outrora mais aficionada região de Portugal, a limitar- se a três ou quatro corridas por ano e sem a presença das principais figuras da actualidade. Dá que pensar!

Nada nos move contra a Empresa Aplaudir, Lda. nem contra o seu gestor, João Pedro Bolota, que respeitamos como um dos mais valorosos forcados do seu tempo, mas algo vai mal quando os cartéis da praça com maior aforo do país não incluem as principais figuras da actualidade, quando se alugam datas a outros empresários e quando a Feira (taurina) do Ribatejo nem preenche as datas tradicionais do tauródromo e, por acréscimo, quando não se aposta na importância histórica da praça para a realização de corridas emblemáticas, como poderia ter sido esta da comemoração da alternativa de Paulo Caetano.

A Santa Casa de Misericórdia de Santarém, na qualidade de proprietária da praça de toiros, tem de saber acautelar os seus interesses, pois a realização de receitas provenientes da actividade taurina – razão fundamental que presidiu à edificação desta praça em 1964 – depende quase exclusivamente dos critérios que estejam subjacentes à estratégia de gestão de cada temporada na Monumental “Celestino Graça” e estou em crer que, por mais simpática e generosa que possa ser a empresa Aplaudir, Lda., não é assim que se salvaguarda o prestígio da praça e a consequente capacidade para angariar satisfatórias receitas.

De ano para ano se nota um desinvestimento na qualidade dos cartéis, com natural reflexo na afluência de público, o que não deixará de pesar no valor da concessão em futuros concursos, pelo que o Caderno de Encargos a elaborar deverá ser muito bem estruturado e apelativo, não deixando de ser exigente. Por este caminho não estaremos longe do tempo em que não haverá interessados na exploração da praça, ou então o valor arrecadado em cada ano não chegará para fazer face às necessárias despesas de manutenção do edifício. E, se esse cenário algum dia se colocar, impõe-se a implementação de medidas que salvaguardem o futuro da praça, mas sem colocar em risco o futuro da Instituição, bem mais importante do que a actividade taurina. O futuro deve aprender-se com as lições do passado, e nos fastos gloriosos da Monumental “Celestino Graça” há muitas e boas lições!

Alternativa Paulo Caetano

LM

*Texto publicado em edição impressa de 25 Setembro