Sabia que … a primeira missa celebrada pelos portugueses na Índia foi na ilha de Angediva, a 22 de Agosto de 1500? E que … um incidente militar aqui registado foi pretexto para a invasão e ocupação de toda a Índia Portuguesa pela União Indiana em 1961, terminando com mais de 463 anos de presença portuguesa na Índia?

A pequena ilha costeira de Angediva, no mar da Arábia, dista do litoral cerca de 2000 metros. Tem cerca de 3 km² de área, fica a sul, mas já fora da costa de Goa, cerca de 20 khm. Havia sido um reduto de piratas. Vasco da Gama fundeia aqui os seus navios a 24
de Setembro de 1498 para proceder a reparações e abastecimento de víveres.

Aqui encontra-se com um certo Mamet, que falando em italiano se apresenta aos portugueses. Questionado, veio a confessar ser judeu e estar na Índia ao serviço de forças locais de Goa. Parte com Vasco da Gama, com destino ao reino, a 5 de Outubro de 1498. Na viagem, converte-se ao cristianismo, adoptando o nome de Gaspar, recebendo o último nome de Gama, devido ao apadrinhamento do próprio capitão. O conhecimento de várias línguas locais fez de Gaspar uma figura de relevo entre os portugueses. Este, serviu Pedro Álvares Cabral, os Vice-reis Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque nas suas viagens e governação da Índia.

Em 22 de Agosto de 1500 Pedro Álvares Cabral no comando da segunda expedição à Índia esteve na Ilha de Angediva e por ser Dia de Acção de Graças assistiu à missa rezada por Frei Henrique de Coimbra. Foi a primeira missa celebrada pelos portugueses na Índia.

Aqui ergueu uma ermida. Porém só passará a ser povoada com D. Francisco de Almeida a 13 de Setembro de 1505, que ali mandou construir uma fortaleza, guarnecendo-a com 80 homens sob o comando de Manuel Peçanha. Mas devido aos ataques das embarcações do Senhor de Goa, sem sucesso, a sua distância de Cochim e os custos de sua manutenção levaram à decisão de a desmantelar, o que foi feito em Setembro de 1506. Foi também a partir de Angediva que Afonso de Albuquerque se lança à conquista de Goa em 1510.

A ilha esteve desocupada até 1661, quando os ingleses ali se instalaram à espera que fosse dado cumprimento aos termos do Tratado que atribuía Bombaim à Inglaterra como parte do dote de casamento de Carlos II com Catarina de Bragança, filha de D. João IV. Os ingleses acabaram por esperar alguns anos, o que levou a que o General e muitos oficiais e soldados acabassem por falecer devido à dureza do clima e más condições de alojamento, de tal forma que da força inicial de mais de 500 homens, em 1665, quando saíram da ilha, restavam apenas 191, ficando na ilha 391 sepulturas. Com a partida dos ingleses em 1665 a ilha ficou novamente desocupada, mas as invasões maratas forçaram os portugueses em 1682 a reconstruir o forte. Em 1729, no lugar da ermida levantada em 1510 foi construída a Igreja de Nª Senhora das Brotas.

No século XIX, em memória dos ingleses é colocado na ilha uma enorme cruz em madeira. Entretanto em Goa, e neste século, assistiu-se a várias revoltas em Satari, nas Novas Conquistas, terra da casta guerreira dos ranes. Para debelar a revolta enviou Lisboa uma expedição militar comandada pelo Infante D. Afonso Henriques, príncipe de Portugal, irmão do Rei D. Carlos. Chegado a Goa em 12 de Novembro de 1895, marchou aquele para Satari e conseguiu rapidamente meter em respeito o “inimigo”. Terminada a missão que ao Príncipe fora confiada e pacificada a região, assumiu este o governo em Março de 1896 como 109º Governador e 51º (e último) Vice-Rei da Índia.

A partir de 1954, com as relações entre Portugal e a recém-independente União Indiana a deteriorarem-se, ocorreram diversas incursões das forças indianas, pelo que foi colocado na ilha um destacamento militar. A 24 de Novembro de 1961, Angediva foi palco de um grave incidente, quando um navio de passageiros indiano, o Sabarmati, foi atacado com tiros disparados da ilha pelos militares portugueses por ter invadido o espaço naval português. O incidente, que causou ferimentos a um tripulante e a morte de um passageiro, foi pretexto para o desencadear da operação Vijay, da qual resultou a tomada pela força dos territórios portugueses na Índia em Dezembro de 1961. Após mais de 463 anos terminava a nossa presença na Índia.

 

(João de Barros, Manuel Saldanha, Silvina Silvério. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)