Candido AzevedoSabia que … por bula de 1419 do papa Martinho V, todo o cristão pecador que fosse para Ceuta por sete anos, teria em caso de morte uma indulgência aos seus pecados que lhe daria acesso ao céu? E que Luís de Camões não perdeu o olho direito nas suas habituais rixas pelas ruas de Lisboa, nem à vida boémia que levava, nem no Oriente, mas sim em luta no norte de África, quando se alistou como voluntário para Ceuta?

A expansão para o norte de África surgiu como um meio de Portugal procurar resolver os problemas que o afectavam no contexto de uma situação de crise geral na Europa. Ceuta, cidade islâmica, foi o alvo que congregou a unanimidade da nação, pois os seus atributos correspondiam aos interesses dos grupos sociais e era esta cidade um importante entreposto comercial que interessava controlar. Assim a 25 de Julho de 1415 largavam de Lisboa perto de 150 navios entre naus, barcas, galés, galeotas e cocas, com um exército de 19 000 homens em armas: portugueses, ingleses, galegos e biscainhos. Nesta expedição seguia o melhor da aristocracia portuguesa do século XV, isto é, os príncipes reais e grandes fidalgos.

Ceuta foi conquistada a 21 de Agosto. Portugal assegurava agora o controlo das rotas marítimas de comércio entre o Atlântico e o Levante. Seria a primeira de muitas praças-fortes que Portugal passaria a ter no litoral da costa marroquina entre 1415 e 1769.

Em 1419 o Papa Martinho V, por bula, concedia por sete anos uma indulgência plenária em caso de morte, a todos os cristãos que permanecessem em Ceuta, ou seja, os cristãos pecadores veriam removida toda a pena devida pelo pecado, podendo ter acesso ao céu.

Ao tempo do Capitão-Geral Afonso de Noronha, em 1547, para Ceuta, como soldado e por dois anos se dirigiu Luís de Camões, aquele que viria a ser o nosso maior poeta com a sua obra “Os Lusíadas”. Este, de alcunha o Trinca-ferros, era um sujeito dado como “folgado, briguento e de amores proibidos”, frequentador assíduo do “O Malcozinhado”, uma casa de má fama lisboeta. Naquela guarnição militar Camões participou em alguns combates. Num desses combates um estilhaço de um tiro vazou-lhe o olho direito. Não é dado como certo em que circunstância perdeu o olho. Alguns autores afirmam ter sido em luta, em terra, com os mouros de Mazagão. Outros referem numa batalha naval no Estreito de Gibraltar. Outros ainda referem numa escaramuça, pequeno e curto combate a cavalo, com mouros cabilas (berberes do norte de Marrocos). Em 1551 regressará a Portugal, partindo depois para o Oriente como homem de armas.

Os benefícios esperados com a conquista de Ceuta não se confirmaram, pois as rotas comerciais foram desviadas pelos mouros para outras cidades. Passados mais de duzentos e cinquenta anos, pelo Tratado de Lisboa assinado a 13 de Fevereiro de 1668 entre Portugal e Espanha, esta reconhecia a independência de Portugal mas…Ceuta ficava sob domínio espanhol.

(António S. Rodrigues, Damião Peres, Gomes Eanes de Azurara, Mateus Pizano)

Cândido Azevedo