Candido Azevedo2Sabia que … na Guiné dos séculos XVII a XIX, a cor da pele não era obstáculo para uma progressão social, sendo chamado de “branco” não só os europeus mas todos aqueles, negros incluídos, que se destacavam por calçarem sapatos, sinal de estatuto? E que … só entre 1800 e 1832 a instabilidade político-militar levou a que houvesse na Guiné uma média de um governador por ano, muitos comandando guarnições de cadastrados?

Com a fundação de Cachéu, em 1588, vai dar-se início à ocupação da Guiné pela Coroa Portuguesa. Recorde-se que ao tempo os portugueses já viviam em Macau e distribuíam-se pelo Pacífico, do Japão a Timor, com uma população nacional inferior a 2 milhões de habitantes.

Guiné tem um território difícil: é plano, selva interior fechada e o litoral recortado por amplos estuários com 88 ilhas, o arquipélago de Bijagós. Uma das ilhas, a de Poilão, é o local mais importante de toda a costa oriental africana para a desova da tartaruga verde.

É em 1687, com a chegada dos franceses, que se inicia a história de Bissau, a Sul de Cachéu, pois Portugal recebe do rei daquela região, Bocampolco, da etnia papel, a permissão de aí construir a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição. Assim a 15 de Março de 1692 é criada a Capitania de Bissau, subordinada à de Cachéu e, só em 1696 é iniciada a edificação da fortaleza, sob o comando do primeiro capitão-mor, José Pinheiro da Câmara. Apresentando a Companhia de Bissau, entretanto criada, prejuízos em anos sucessivos, a Coroa deixou de renovar o contrato de exploração em 1703, o que conduziu ao abandono da Capitania-Mor de Bissau em Dezembro de 1707, sendo então a sua fortificação arrasada. Apesar da reocupação de Bissau em Novembro de 1753, somente em 1766, com o final da construção da Fortaleza da Amura, na época chamada de Praça de S. José, teve início a evolução de Bissau.

Até finais do século XVIII a Guiné Portuguesa consistirá essencialmente nas duas praças com alguma importância económica e militar, Cachéu e Bissau, e de outras cinco de menor relevância: Ziguinchor, Farim, Bolor, Geba e Fá. Por aqui viviam algumas dezenas de europeus e cerca de 3 a 5 mil indivíduos de origem cabo-verdiana ou luso-guineense quase sempre miscigenados com as populações indígenas e conhecidos como os “lançados”, a classe mais alta. Estes, enquanto comerciantes e negreiros controlavam o comércio na colónia. O estrato social intermédio era preenchido pelos pequenos comerciantes, pelos proprietários de pequenas embarcações, funcionários da administração colonial e oficiais do exército. As camadas mais baixas eram constituídas por soldados, empregados dos serviços e um grupo indígena muito aculturado conhecido por “grumetes”. Socialmente esta sociedade guineense permitia um amplo leque de progressão social, pois pelo casamento com mulheres de famílias indígenas abastadas, sobretudo das etnias Papel e Bijagó, as “Nhás” da Guiné, os comerciantes, os oficiais do exército e os elementos da administração podiam ascender aos estratos mais altos da sociedade. A cor da pele não era obstáculo sendo a designação “branco” usada não somente para europeus mas para todos aqueles que se apresentavam calçados de sapatos, sinal de boa posição social ou económica e que originou com o tempo a criação de comunidades mercantis (gan) que violando sistematicamente as regras de comércio fixados pela Coroa procuravam amealhar as “barafulas” a moeda corrente na costa da Guiné e Cabo Verde. Tal levou a vários confrontos como o que aconteceu a 25 de Março de 1684 liderada por uma viúva mestiça guineense, Nhá Bibiana Vaz, que prendeu o comandante militar de Cachéu José de Oliveira que, tal como um escravo, foi algemado e humilhado ficando preso cerca de um ano até o problema ser resolvido entre a Coroa e as comunidades mercantis.

A resistência à ocupação esteve sempre presente desde o início; mas com a proibição da escravatura a partir de 1810, irá agravar-se surgindo um período de grande instabilidade local motivada fosse pelas sublevações e rebeliões de algumas das 23 etnias, fosse pela cobrança do “imposto de palhota”, lutas que originavam aliados de ocasião quer com povos locais (balantas, papéis, mandingas, beafadas, nagos, bijagós, manjacos, etc.) ou com forças estrangeiras (ingleses, franceses e norte-americanos). Não é por acaso que entre 1800 e 1832 houve um total de 22 governadores dos quais apenas 8 foram nomeados pela Coroa, sendo que alguns deles foram mestiços e um, negro. Muitas vezes os membros da guarnição militar eram cadastrados. O restabelecimento da ordem iniciar-se-á em 1844, com várias campanhas de pacificação entre 1913 e 1915 sob o comando de Teixeira Pinto. Em 1879 a Guiné separa-se administrativamente de Cabo Verde. Em 1963
tem início a luta de guerrilha liderada pelo cabo-verdiano Amílcar Cabral, visando pôr termo ao colonialismo português. Declarada unilateralmente a independência a 24 de Setembro de 1973, esta só será reconhecida de facto com a Revolução de Abril de 1974, terminando com quase quatrocentos anos de domínio português.

(Philip J. Havik, António Carreira, J. Basso Marques, Henrique Pinto Rema, Damião Peres, A. Teixeira da Mota)

Cândido Azevedo

*Texto publicado em edição impressa de 2 Outubro