Sabia que … a relíquia milenar budista, o dente de Buda, trazido de Jaffna pelo Vice rei D. Constantino de Bragança foi julgado em Goa pelo Tribunal da Inquisição e condenado a ser desfeito em pó e atirado ao rio?

E que … em 1619, os familiares diretos de um rei de Jafanapatão enforcado em Goa, foram forçados a ingressarem como monges e freiras em diversas ordens religiosas?

Estabelecidos em Colombo desde 1518, dominando o reino de Cota e controlando a apanha de pérolas no estreito de Palk, os portugueses ocupam em 1540 a ilha de Mannar do reino de Jafanapatão, para onde trazem algumas centenas de indianos cristianizados para a apanha de pérolas. A conversão dava-lhes a esperança de proteção militar.

Em 1544 o soberano Cankili I ordena o massacre destes católicos de Mannar.  A retaliação a este massacre, só acontece em 1558 com o Vice-Rei D. Constantino de Bragança, que estabelecido em Mannar, captura Jaffna a capital, em 1560 e envia Cankili I para o exílio. Instala no trono o rei Puviraja e levanta o forte de Nª. Sra. dos Milagres. O novo rei ofereceu a sua submissão ao exército português, mas rapidamente tirou partido do seu regresso a Goa em 1561 para organizar uma bem-sucedida revolta.

O exército de D. Constantino trouxera entretanto para Goa parte do tesouro de Jaffna, entre o qual estava o trono do rei para oferecer a D. Sebastião e o suposto dente de Buda símbolo do budismo que segundo os cristãos, impedia a implantação do cristianismo na ilha. D. Gaspar Leão Pereira, Arcebispo de Goa com jurisdição sobre Ceilão submeteu-o a julgamento pelo Tribunal da Inquisição, que se instalara em Goa em 1560. A sentença foi o de ser queimado, desfeito em pó e lançado ao rio, na presença de D. Constantino.

Porquê relíquia? Segundo a tradição, o dente canino esquerdo do maxilar inferior de Buda começou por ser roubado da pira funerária por um dos seus seguidores em 483 AC. Todos os povos budistas do oriente disputaram entre si a posse do famoso dente. Depois de muitas peripécias, lendas e prodígios, atribuídos durante centenas de anos, acabou num pequeno templo em Ceilão, no sec. IV. O dente foi considerado preciosidade religiosa, mas também um símbolo de soberania pois quem o possuísse tinha o direito de governar.

De 1560 a 1590 alternam-se as relações com os portugueses. Em 1591 o rei Puviraja, novamente no trono, lança um ataque à posição portuguesa em Mannar. Faz-lhes frente o capitão André Furtado de Mendonça, sendo abatidos na batalha o rei e sua mulher, apoderando- se finalmente as forças portuguesas do reino de Jafanapatão. De seguida instalam no trono o filho do rei, Ethirimanna Cinkam, iniciando assim o período em que aquele reino se torna um Estado cliente de Portugal até 1617, data em que faleceu.

Por um golpe sobe ao trono Cankili II, sobrinho do falecido, que inicia em 1619 a revolta contra os portugueses. Em Junho, uma força combinada portuguesa foi enviada contra Jaffna. Embora as forças navais fossem derrotadas pelos corsários do Malabar, as de terra, sob o comando de Filipe de Oliveira, derrotaram as de Jaffna, capturando o soberano e conduzindo-o a Goa, onde foi enforcado.

Os membros diretos da família real também foram deportados para Goa, e forçados a ingressarem como monges e freiras em diversas ordens religiosas, para não gerarem novos pretendentes ao trono. Neste confronto, os portugueses destruíram a maior parte dos templos hindus e a biblioteca de Nalur, onde se encontrava o repositório real de todas as obras literárias do reino.

As forças holandesas comandadas por Rijcklff van Goens, que haviam chegados em 1638 insatisfeitos com o trato das Molucas, lançam a 22 de Junho de 1658 uma ofensiva, capturando a Fortaleza de Jafanapatão. após um cerco de dois meses. Entretanto em 1656 perdia-se também para os holandeses,
Colombo, no reino de Cota. Terminava a soberania portuguesa nesta ilha após 153 anos de presença.

Interessante é registar que ainda hoje na costa oriental, em Batticaloa e Trincomalee, conhecida dos portugueses desde a década de 1540, existem ainda famílias de descendentes, os Portuguese Burghers, que são católicos, falam (ainda) um crioulo indo-português, e têm apelidos como Pereira, Fonseca, Fernandes, etc.. Estas comunidades, em ocasiões festivas ainda dançam a “cafrinha” e o “chicote”, reminiscência lúdica dos antigos escravos africanos, e a sua forma musical, pela ampla divulgação a partir do aparecimento da rádio é hoje música nacional do Sri Lanka, com o nome de “baila”.

(Jorge Flores, Chandra Silva, George Winius, Paul Peiris, Fernao Queyroz, Gabriel Saldanha. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).