Sabia que … para os portugueses, da riqueza das Laquedivas, o coco era o menos valorizado embora este fizesse rico um proprietário de cinco coqueiros? E que … o nome “coco” atribuído ao fruto do coqueiro foi dado pelos portugueses?

Terminadas as férias de Verão é tempo de retomarmos a escrita trazendo ao conhecimento dos leitores do Correio do Ribatejo, ao jeito de um “arquivo de História”, mais “novas de terras e gentes” de territórios onde exercemos a nossa soberania. Quando desta minha estadia em Santarém registei mais uma vez com agrado as felicitações de muitos, amigos e conhecidos, todos eles me encorajando a prosseguir com esta escrita. Abordemos então hoje o arquipélago das Laquedivas (Lakshadweep) um conjunto de 12 atóis de coral, três recifes e cinco bancos de areia, além de muitos ilhéus menores num total de 32 khm2. Significa em sânscrito “cem mil ilhas”.

As ilhas estão situadas a cerca de 200 a 300 km da Costa do Malabar a Sul da Ilha de Angediva, esta situada na costa de Karnataka a cerca de 20 khm a Sul de Goa e a esta pertencente e de quem já tivemos ocasião de escrever. A grande riqueza deste arquipélago foi sempre a pesca, o coral e o coco.

Os portugueses avistaram as Laquedivas em 1498, mas só na primeira década de 1500 se preocuparam em ocupar algumas das ilhas dado o arquipélago ser um antro de piratas.

O suporte dado pela população aos piratas muçulmanos cedo levou a que os portugueses punissem a população de forma violenta e ainda mais violenta, com o castigo de decapitação, se de um pirata se tratasse. A redução da guarnição militar portuguesa na década de 1530-1540 facilitou a revolta dos habitantes da ilha principal, Kavaratti, que expulsaram os portugueses em 1545. A dificuldade em navegar nas águas pouco profundas do arquipélago, acrescido ao pequeno provento das ilhas, levaram os portugueses a perder o interesse por elas.

Se o coral interessou aos portugueses durante algum tempo, pouco valorizado foi o coco, nome atribuído ao fruto, pela sua aparência, por aqueles na sua 1ª viagem à Índia. É que o coco, quando visto da extremidade do lado dos poros de germinação, assemelha-se à face de um “coco”, monstro imaginário como o papão ou o ogro, com que se assustavam naquele tempo as crianças.

Para um indiano o coco é o símbolo da vida e faz rico um proprietário com cinco coqueiros. Porquê? A sua longevidade faz dela uma árvore poderosa de grande rendimento e utilidade. Vejamos esta última: um coqueiro geralmente dá de três em três meses uma média de cinco cachos de coco maduro, na ordem de cinquenta cocos, num total anual de aproximadamente mil cocos; o tronco proporciona a construção de barcos, jangadas, colunas, etc.; as raízes fornecem antídotos para a mordedura da cobra e tem várias propriedades medicinais; da casca fazem-se cordas, tapetes, esfregões e pincéis; o endocarpo serve de combustível e também para fabrico de archotes e artefactos domésticos; a polpa serve para fazer palmite, óleo, caril (o alimento do dia a dia) e variada doçaria; o óleo para além da culinária serve para amaciar e fortalecer o cabelo; da seiva extrai-se, por ano, cerca de quatrocentos litros de “sura” (bebida alcoólica) e desta, a jagra (açúcar) e o fenny, uma espécie de aguardente; com as folhas constroem-se esteiras, vedações para quintais, quebra-luzes para janelas, telhados, toldos, bagançais e até chinelos. Esta a razão da riqueza e do valor de um coqueiro num território bem pequeno.

(M. H. Fitzler, João de Barros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).