Candido Azevedo2Sabia que… entre a população da costa marroquina existem diversas lendas relacionadas com os portugueses invasores e que atemorizam o imaginário do povo de Marrocos?

Não é certa a data da conquista do território de Aguz mas aponta-se que foi no ano de 1506, tendo estado sob o domínio português, julga-se, até 1542 embora não existam referências históricas a partir de 1525. Foi conquistado a mando do rei D. Manuel I como apoio a Safim, situando-se na margem direita da foz do rio Tensift no litoral atlântico de Marrocos. Foi seu primeiro capitão Diogo de Azambuja.

Os combates constantes com os mouros das tribos dos Haha e dos Suz levaram à rápida construção de um forte. A rapidez com que esta fortificação foi dotada de uma torre para a artilharia, surpreendeu os mouros que atribuíram tal construção à ajuda celestial, dando origem à lenda de Aguz segundo a qual os portugueses, numa só noite, teriam erguido a fortaleza com o auxílio dos anjos. Na verdade, a rápida edificação da mesma, deveu-se à utilização de uma torre de madeira pré-fabricada, transportada do reino. Só em 1519 é levantada uma nova construção de pedra e cal em estilo manuelino.

Tal como Aguz, outros castelos e fortalezas foram construídos pelos portugueses ao longo da costa marroquina, fossem para protecção dos nossos domínios urbanos norte africanos, fossem na procura de reter no interior as populações locais, fossem ainda para fazer guerra aos piratas prestando um inestimável serviço à navegação europeia, como foram os casos dos castelos de Larache (1471), Graciosa (1481), Beni Boufrah (1499), de Ben Mirao (1507), ou o de Seinal (1549) este nunca concluído.

Alguns desses castelos, abandonados há séculos e com as suas silhuetas sombrias, assustadoras e deterioradas, alimentam no imaginário marroquino outras lendas. Vejamos mais duas: a do Rochedo do Diabo em Ben Mirao ou a de Aícha Kandicha, a Condessa.

Do primeiro diz a lenda que as jovens que o visitarem, ao aproximarem-se de um buraco existente na sua superfície, uma espécie de poço que comunica com o mar, são atraídas de forma irresistível para o seu interior, o que as impele a atirarem-se à água. Tal lenda deu origem a um costume ainda hoje praticado, onde jovens mulheres, em idade de casar, colocadas dentro do buraco e que esperem que sete vagas passem por si, encontrarão facilmente marido e terão felicidade e fertilidade no seu casamento.

A lenda da Aícha Kandicha refere ser esta uma mulher bela e misteriosa, vinda com os portugueses invasores, que vagueia pelas praias desertas e que após seduzir e enfeitiçar os homens com quem se cruza, os mata. Condessa portuguesa ou moura encantada, Aícha é encarada como um demónio feminino com pés de camelo, que enlouquece os homens que andam sós na escuridão ou que persegue e castiga as crianças mal comportadas.

A praça-forte de Aguz, que se manteve ao longo de 36 anos sob o domínio português, foi abandonada após a tomada da fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué em Março de 1541 por forças saadianas de Suz, comandadas por Mohammed ech-Cheikh.

 

Cândido de Azevedo

(Damião Peres, David Lopes, Frederico Paula Mendes)

*Texto publicado em edição impressa a 29 de Maio.