Candido Azevedo2Sabia que … apesar da morte do marido e cativeiro do pai e irmãos, a fidalga portuguesa D. Mécia Carvalhal se tornou muçulmana e casou com um sultão de Marrocos?

Em 1505, enquanto o povo lisboeta se divertia com o primeiro elefante chegado numa das armadas da Índia, um punhado de portugueses edificava uma fortaleza na costa atlântica marroquina visando impedir a pretensão de Espanha, já senhora das Ilhas Canárias, em iniciar a ocupação da costa africana. Para o efeito, Diogo Lopes Sequeira, constrói a fortaleza denominada Santa Cruz do Cabo de Gué no local onde hoje se ergue a cidade de Agadir.

Apesar de algum esporádico apoio militar por portugueses de Mogador, (conquistado em 1506 e abandonado em 1512), a guarnição militar de Santa Cruz do Cabo de Gué e os seus quinze sucessivos capitães ou governadores viveram décadas de dificuldades sofrendo lutas e cercos, até que em 12 de Março de 1541 o Xarife de Suz, Mohammed-Ech-Cheikh, apodera-se da fortaleza, depois de um cerco de seis meses.

Cerca de seiscentos sobreviventes são feitos prisioneiros, fazendo parte destes, o governador D. Guterres de Monroi, seus filhos Jerónimo e Manuel e sua filha Dona Mécia Carvalhal, viúva de D. Rodrigo de Carvalhal, que havia morrido durante o cerco.

Passado quase um ano, ainda no cativeiro, Dona Mécia fez-se moura e casa-se com Mohammed-Ech-Cheikh, futuro sultão de Fez. Mas em princípios de 1544, depois dum parto onde a filha não sobreviveu, Dona Mécia morre também, ou por não ter resistido ao parto ou porque envenenada pelas outras mulheres do sultão.

Ainda em 1544 o sultão manda libertar o governador D. Guterres de Monroi, por quem passara a nutrir certa amizade.  Os restantes cativos foram resgatados sem problemas por religiosos vindos especialmente de Portugal. O sobrinho, D. Luís de Monroi, não quis regressar a Portugal, tornando-se também ele muçulmano, passando a viver na corte do amigo sultão Abdallah el-Ghali, filho e sucessor de Mohammed.

Este respeito e boa convivência entre inimigos, outras vezes a boa vizinhança como em Safim, ou ainda muitos anos de paz como em Arzila, possibilitaram a introdução de elementos da nossa cultura nos costumes de Marrocos, e cujos nomes ainda perduram no dialecto árabe-magrebino (a Darija marroquina, escrito em alfabeto latino) em vários temas com destaque para peças de vestuário, como qamija  (camisa),  saia (saia),  sabate (sapato) ou  randa (renda), mobiliário qabeta (gaveta), mário (armário), ou utensílios como sgarro (cigarro) e qarrossa (carrossa), ou ainda outros termos importantes como brassa (praça) ou dutur (doutor).

Depois da perda de Santa Cruz do Cabo de Gué, que permaneceu portuguesa cerca de 39 anos, os portugueses iniciam o recuo estratégico na região sul de Marrocos, abandonando Azamor e Safim em 1542 e Alcácer-Ceguer e Arzila respectivamente em 1549 e 1550. Marrocos começava a ter menos importância para Portugal, que se virava agora cada vez mais para o Brasil, onde iria começar muito em breve o seu primeiro ciclo de riqueza: o da cana-de-açúcar.

(Frederico Paula, , João Marinho dos Santos e Crónica de Sta Cruz do Cabo de Guê de anónimo português).

Cândido Azevedo

*Texto publicado em edição impressa a 15 de Maio de 2015