Candido Azevedo2Sabia que … a cidade marroquina de Azamor, anos antes de se tornar domínio português pagava já a Portugal um tributo anual de dez mil unidades do apreciado peixe sável? E que na batalha de Mamora pereceram 4000 portugueses e perderam-se cerca de cem navios, num só dia?

 

Azamor era um grande centro comercial dotado de um excelente porto no rio Morbeia. A instabilidade política que viveu em 1486 levou os seus habitantes a pedir a protecção do rei D. João II, de quem se tornaram vassalos e tributários, sendo o tributo anual de dez mil unidades do apreciado sável, peixe abundante naquele rio. Mais, permitiu o estabelecimento de comerciantes portugueses, vindo a ser primeiro feitor Martim Reinel.

Desavenças constantes entre os seus habitantes e a expulsão de alguns portugueses que viviam na cidade, antecedido já por forte animosidade entre portugueses e guerreiros mouros liderados pelo governador Moulay Zayam, provocam o encerramento da zona comercial portuguesa nos princípios de 1513, ano em que no Oriente os portugueses contactavam a China pela primeira vez. Tal expulsão e animosidade deu motivo a que D. Manuel enviasse a 15 de Agosto, para Azamor, uma forte armada com alguns centos de navios e cerca de 18 mil homens sob o comando de D. Jaime,  duque de Bragança. No dia 1 de Setembro desse ano os portugueses atacaram a cidade, que capitulou no terceiro dia.

A brilhante vitória das forças portuguesas na Batalha de Azamor que surpreendentemente não perderam um único homem, algo considerado autêntico milagre, leva o Papa Leão X a mandar fazer em Roma uma engalanada procissão, onde ele celebrou uma missa pontifical e pregou em louvor dos portugueses e de suas heróicas obras pela “exaltação da Fé e aumento de sua Igreja”. Fernão de Magalhães, o navegador da primeira volta ao mundo, participou nela onde foi ferido.

Pouco depois, próximo de Azamor é identificada uma rota de comércio para Marraquexe, cidade do interior. Para controlo de tal rota decidem os portugueses construir uma fortaleza na foz do rio Sebú, a que chamaram de São João da Mamora, topónimo já existente no local. Sob o comando de D. António de Noronha para lá convergem em Junho de 1515, 200 navios e 8.000 homens, para iniciarem os trabalhos de construção. Apesar de conquistado e controlado pelos portugueses durante algumas semanas, o forte não chegou a ser concluído. Aproveitando uma maré vazia, as forças do sultão de Fez atacam a esquadra portuguesa por terra, que não conseguindo manobrar devido ao tamanho dos barcos, se vê parcialmente destruída e onde morrem cerca de 4.000 portugueses, algo jamais acontecido e perda irreparável quando Portugal, ao tempo, já navegava pelo Pacífico.

Azamor será posteriormente vítima de grande pobreza e fome, com os ataques do exterior a serem cada vez mais frequentes. Após 56 anos de domínio português será abandonada em 1542, juntamente com Safim.

O desastre de Mamora de Agosto de 1515 irá iniciar o fim da expansão portuguesa em Marrocos, só reassumida pelo rei D. Sebastião em 1578, cuja derrota em  Alcácer-Quibir, levará à crise dinástica de 1580, com a consequente perda da independência de Portugal por 60 anos.

Após a retoma da independência em 1640 os únicos territórios em Marrocos que se manterão portugueses serão Tânger e Mazagão, pois Ceuta permanecerá na coroa espanhola. Tânger, alvo de duas tentativas de conquista (1437 e 1458) e quando já sob domínio português por quase duzentos anos, será doada à Inglaterra em 1661 como dote do casamento da princesa Catarina de Bragança, com Carlos II. Restar-nos-á Mazagão.

Cândido de Azevedo

(Maria Augusta Lima Cruz, Pedro de Mariz, Damião Peres)

*Texto publicado em edição impressa de 12 de Junho