Candido Azevedo2Sabia que… no dia de São João de 1586, durante as festas dedicadas ao Santo, o governador de Mazagão, participando voluntariamente nos jogos equestres, caiu do cavalo tão desastradamente, que morreu? E que … quando se abandonou esta praça as 436 famílias com os seus escravos foram mandados para a Amazónia?

Mazagão, no norte de África, não foi conquistada. Em 1502, uma figura importante da zona, Celeme Ben Omar, propôs aos portugueses a construção de uma fortaleza que servisse de protecção ao comércio do trigo. Para o efeito os portugueses ergueram algumas instalações de campanha. A fortificação permanente do local, foi construída em 1514 por D. Jaime, Duque de Bragança, na mesma altura em que em Roma perante o Papa Leão X desfilava a embaixada enviada por D. Manuel, na procura de prestígio para si e para Portugal, composta de tudo quanto era exótico na época, como indígenas do Brasil e da Ásia (os portugueses já haviam chegado à China), e animais como leopardos, panteras, papagaios, perus raros, cavalos indianos e um elefante branco indiano, o Hanno, trazidos pelos navegadores portugueses.

Em 1541, debaixo de uma pressão militar intensa movida por Mohammed-Ech-Cheikh, D. João III manda construir uma nova fortaleza à volta da anterior. Esta viria a ser primeira cidade da expansão ultramarina planeada por portugueses.

A vida das guarnições nas praças-fortes do Norte de África não era fácil: para além do clima inóspito eram obrigadas a viverem encerradas em espaços exíguos, em lutas constantes e apenas reabastecidos por mar. Para uma destreza necessária para os combates com os mouros necessitavam as guarnições de práticas físicas como úteis exercícios para aquelas ocasiões de guerra. Obras diversas referem ser as guarnições militares portuguesas no Norte de África entusiastas dessas práticas físicas, porque lúdicas. Nos frequentes festejos todos gostavam de se mostrar como “homem de cavallo”, ou “bom calção”, isto é, com a capacidade de governar o animal segundo as necessidades ou conveniências de momento apresentando-se aptos a jogar às canas, alcanzias, tavolados ou argolas, os mais preferidos dos jogos equestres. E é num destes jogos, nos festejos de São João de 1586, que desastradamente cai do cavalo e vem a falecer o governador Gil Fernandes de Carvalho, logo no seu primeiro ano de mandato.

Diversos factores não permitiram tirar de Mazagão trigo que chegasse ou qualquer outro benefício em prol da população da cidade, pelo que em 1769 o Marquês de Pombal resolve acabar com esta última praça-forte em território marroquino, mandando as 436 famílias com os seus escravos para Amapá na Amazónia, que estava então a ser colonizada. Com este abandono dar-se-á por finda a presença portuguesa de mais de três séculos e meio no Norte de África.

Mazagão, hoje Al Jadida, foi considerado pela UNESCO património da humanidade, por ser um excepcional exemplo do intercâmbio de influências entre as culturas europeias e a marroquina e um dos primeiros exemplos da realização dos ideais do Renascimento integrados nas técnicas de construção portuguesas.

 Cândido de Azevedo

(Luís A. da Cunha, Augusto F. do Amaral, Robert Ricard)

*Texto publicado em edição impressa a 26 de Junho