Candido Azevedo2Sabia que … desde o início da fixação dos portugueses no território de Angola, este foi considerada terra ideal para o degredo, para onde eram enviados criminosos, ciganos, judeus e prostitutas? E que na primeira metade do século XIX todo o navio vindo do Brasil para Angola tinha que trazer, obrigatoriamente, uma égua reprodutora?

Até à segunda metade do século XVIII Angola ocupava lugar secundário nos cuidados da Coroa, pois só o Brasil e a Índia pesavam nas suas preocupações. Para aqui é que iam os melhores dos seus homens. Angola, fortemente vinculada ao Brasil desde a expulsão dos holandeses pelos luso- brasileiros, era considerada ideal para o degredo vil, logo, para crimes tidos como os da pior espécie. Para Angola eram enviados criminosos, judeus, ciganos e prostitutas, como em 1633 quando o Tribunal da Inquisição de Lisboa enviou dezenas de judeus e centenas de famílias ciganas que viviam em Portugal e no Brasil, bem como 234 mulheres, todas elas brancas, com idade entre os 20 e os 40 anos.

Será com o Governador Sousa Coutinho, em 1764, que se iniciará o impulso colonizador, visando acabar com a libertinagem que por lá se sucedia, principalmente no interior, e iniciando o combate ao envio de escravos para o Brasil. Para o efeito, em todas as povoações que manda criar ao longo dos 8 anos do seu governo, dota-as de juiz, pároco e capitão- mor da ordenança; dava baixa aos soldados, desde que se casassem e se dedicassem à lavoura ou à indústria. De imediato se inicia o ensino de ler, escrever e contar e em 1791 é acrescentado o ensino de medicina e geometria.

Em finais do século XVIII a situação de Angola era ainda de um quase total abandono e apatia, perante um negócio que impedia qualquer outra iniciativa: o da escravatura. Era fácil convencer os sobas amigos e inimigos a apresentarem em Luanda e Benguela levas e levas de escravos que imediatamente eram vendidos. Neste estado e perante uma tropa composta de degredados e africanos, vários foram os ataques dos corsários franceses, chegando mesmo um deles a saquear Benguela em 1799.

Nos começos do século XIX os reinos de Angola e Benguela, unidos pelo mar, continuavam separados por terras que não reconheciam o rei de Portugal. As ligações por terra eram difíceis e o transporte feito por carregadores. Pretendendo facilitar a ligação, inicia-se o transporte por tracção animal, pelo que é criada a coudelaria do Dande e tornado obrigatório que cada navio negreiro vindo do Brasil trouxesse uma égua reprodutora a ela destinada.

Por esta altura é observável em vários países europeus uma certa vontade expansionista e a consequente inquietação geográfica. Também Portugal procura uma penetração e conquista do interior iniciando tentativas de ligar Angola a Moçambique. Ficou célebre a travessia conseguida por Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, mas sem algum proveito face à ambição da Inglaterra que dificultou a delimitação das fronteiras. Tal só será alcançada no século XX, com a Inglaterra a Leste e com a Alemanha a Sul, e numa extensão muito maior do que a do território cujo nome Angola andava associado. Face à necessidade de uma “ocupação definitiva”, Portugal concentra-se na consolidação do Estado colonial nos finais do século XIX. Vai criar uma máquina administrativa de controlo e de gestão e o comércio angolano tomará novo rumo: irão surgir novas fontes de riqueza como o ferro, ouro, cana sacarina, algodão, café e por último o petróleo.

De Colónia (oficialmente Estado da África Ocidental) passará a Província Ultramarina de Angola (1951) e para Estado de Angola (1972). Uma guerra de guerrilhas tem início em 1960 visando a independência. Com a Revolução de Abril em Portugal, Angola alcança a independência em 1975. Acabavam-se cinco séculos de domínio português. (Damião Peres, A. Silva Rego, Sanja Pantoja, Gastão Sousa Dias)

Cândido Azevedo

*Texto publicado em edição impressa de 23 Outubro