Candido Azevedo2Sabia que … para além de ouro e escravos negros, os portugueses procuravam também adquirir nesta feitoria alguns animais raros, sendo um destes os gatos-de-algália? E que … uma bula papal concedeu a D. Afonso V e seus sucessores, a faculdade de reduzir os infiéis à escravatura?

 

A expansão portuguesa não havia de limitar-se ao Norte de África. Portugal sonhava com mais vastos horizontes à medida que os mistérios do Mar Tenebroso se dissipavam com as minúsculas caravelas que, dia a dia, levavam a Cruz de Cristo mais para o Sul. Nos anos que se seguiram à passagem do Cabo Bojador por Gil Eanes, em 1434, as embarcações portuguesas atingiam a costa saariana, a que chamaram Rio do Ouro. Daqui rapidamente atingem a costa da Mauritânia. Estas navegações foram desde logo lucrativas, não só pelo ouro, mas também quer pelo corso, e, tal como em Marrocos, pelas “razias” que a cavalo se faziam para o interior.

Por volta de 1443 Nuno Tristão alcança Arguim, ancoradouro seguro e rico em peixe. Apresentava-se como um local adequado ao estabelecimento dos interesses comerciais portugueses: encontrava-se próximo dos circuitos percorridos pelas caravanas mercantis que atravessavam o Saara, e que frequentemente se aproximavam da costa devido à abundância de sal e água doce. Este local beneficiava também da proximidade do importante entreposto comercial de Uadan, no interior africano da Mauritânia, também ele visitado de quando em vez por comerciantes portugueses, que aí levantaram um fortim em 1486, visando a construção de uma feitoria.

Assim em 1448, sob as instruções do próprio Infante D. Henrique, funda-se em Arguim a primeira feitoria permanente na costa ocidental africana, que irá servir de modelo para todas as outras feitorias ou fortalezas a criar em África ou posteriormente no Oriente. Para o efeito levantou-se um castelo para protecção dos navios e segurança dos povoadores, bem como um conjunto de equipamentos de acolhimento e manutenção de navios, para além dos armazéns. Estavam então os portugueses convencidos que a principal fonte de lucro seria a exploração de minas de ouro, expectativa que não se realizou. Viria a ser a escravatura que já se praticava muito antes da chegada dos portugueses a esta zona, articulada com a expansão do Islão, pelo que não é de estranhar a bula Dum Diversas, de  1452, onde o papa Nicolau V concede a D. Afonso V e seu sucessores, a faculdade de “conquistar e subjugar as terras dos infiéis e de reduzir a pessoa deles à escravatura”.

O comércio dirigido a partir da feitoria atingiu o seu auge no terceiro quartel do século XV, passando a ser com D. João II, em 1481, monopólio régio. Baseava-se essencialmente na aquisição de mercadorias transportadas pelas caravanas sudanesas, nomeadamente escravos, ouro em pó e animais exóticos como os gatos-de-algália, porque estes, raros, são possuidores de glândulas que produzem uma secreção acre e oleosa utilizada na confecção de essências para perfumes, algo extremamente importante ao tempo, não só na higiene pessoal ou prevenção de doenças, mas também no perfumar das cinzas na Quarta Feira de Cinzas ou mais logo reconhecido pela sua sedução e sensualidade. Estas mercadorias eram negociadas junto das caravanas em troca com produtos como panos, quinquilharia diversa, cereais ou cavalos, produtos que eram trazidos pelos Portugueses muitas vezes das praças do Norte de África.

Na década de 1480, a mando de D. João II, o castelo foi aumentado, mas Arguim foi perdendo a sua importância à medida que os interesses comerciais portugueses se expandiam para regiões mais a sul, sobretudo para o Golfo da Guiné, onde o comércio de ouro e escravos se revelou consideravelmente mais lucrativo.

Nova fortaleza é construída em 1607. Porém esta não resistiu ao assalto dos holandeses em 1633. Terminava desta forma o domínio português de mais de 185 anos.

Cândido de Azevedo

(Rui Amendoeira, José Ferreira, Oliveira Marques)

*Texto publicado em edição impressa de 10 Julho