Candido Azevedo2Sabia que … ao tempo do rei D. Sebastião o território português de Angola foi denominado por “Reyno de Sebaste na Conquista da Etiópia ou Guiné Inferior”? E que … em 1722 o Capitão do Reyno de Benguela foi preso por um padre?

Numa segunda viagem à África, por volta de 1485, chegou Diogo Cão ao Cabo Negro, (antiga Moçâmedes), hoje Namibe, supondo que tenha aqui iniciado a utilização de padrões de pedra assinalando a presença portuguesa. Conhecida a costa, os portugueses contactam alguns potentados locais, vassalos do Reino de Ndongo, cujo soberano tinha o título de Ngola, significando “força”. Por volta de 1515 Ngola A Kiluanje Inene vai fundar uma dinastia que mais tarde se virá a conhecer como o Reino de Ngola deixando de prestar vassalagem ao Reino do Congo. Na segunda metade do século XVI os portugueses passaram a aplicar esse termo a outras regiões e chefes vizinhos com quem contactavam, chamando à região de Terras do Ngola.

D. Sebastião envia para essas terras Paulo Dias de Novais com o título de Governador e Capitão-Mor, conquistador e povoador do “Reyno de Sebaste na Conquista da Etiópia ou Guiné Inferior”, nome então atribuída à região. Este partiu de Lisboa a 23 de Outubro de 1574 e desembarcou na chamada Ilha das Cabras, actual Ilha de Luanda, a 11 de Fevereiro de 1575. Ali encontrou portugueses estabelecidos, enriquecidos com o comércio de nzimbos (conchas de búzios pequenos), que serviam de moeda corrente para transacções comerciais no interior das províncias do Reino do Congo e também de tributo ao seu rei.

Entre acordos e desacordos com gentios locais, a 29 de Junho de 1576 representantes do Ngola Kiluari Kiassambe permite a Paulo Dias de Novais mudar-se para terra firme, onde vai fundar a povoação de São Paulo de Luanda. Alimentando conflitos entre os sobas, os portugueses vão-se fixando e explorando os seus recursos naturais, em particular os escravos para abastecimento das plantações de cana-de-açúcar do Brasil. Para a obtenção destes bastava-lhes esperar que fossem enviados pelos sobas, pois à época a penetração para o interior era muito limitada, apenas tentada pelas missões católicas. Não é de estranhar ser uma das primeiras recomendações aos novos Capitães- mores do agora Reyno de Angola (a partir de 1588), o uso de cortesia e de amizade para com estes sobas, que se dividiam entre: amigos e vassalos, porque centros de irradiação de influência portuguesa e de quem recebiam preitos de vassalagem e amigos mas não vassalos, obrigados à renovação da sua amizade.

Durante a ocupação filipina os holandeses ocupam parte do litoral e a capital Luanda, por 7 anos. Mandado por D. João IV, Salvador Correia de Sá e Benevides governador do Rio de Janeiro, com 15 embarcações e 1400 homens luso-brasileiros, entre estes, muitas companhias de índios cristianizados, desembarca as suas tropas e ataca os holandeses que capitulam dias depois, a 14 de Agosto de 1648. A principal aliada dos holandeses, a rainha Nzinga, havia sido derrotada pouco antes, em Janeiro de 1647 por Gaspar Borges de Madureira. Esta era já conhecida dos portugueses, desde 1621, pelo nome de Ana de Sousa e pela sua inconstante fidelidade a Portugal.

No século XVII ainda modestos eram os territórios agora divididos em Reyno de Angola (Luanda, Bengo, Cuanza), ao Norte, onde residia o Capitão-Governador e Reyno de Benguela (Benguela, Catumbela e Baía Farta), ao Sul e a partir de 1615, onde residia, com alguma autonomia, o Capitão. Este permaneceria décadas em quase completo esquecimento das autoridades de Luanda.

No século XVIII, dado já o grande número da população, instala-se o Tribunal da Inquisição preocupando-se com as denúncias de feitiçarias praticadas no interior, um mundo longe do controle das autoridades. É assim que em Outubro de 1722, na cidade de S. Felipe do Reyno de Benguela, o Capitão da Fortaleza António de Freitas, português mestiço do Brasil, é acusado da prática mágica do entambe em sua casa, procurando curar-se de uma doença. Para o efeito seguiu os preceitos do feiticeiro local, o ambumdu, que constava da adoração de um bode e do sacrifício de um bezerro. Nomeado ouvidor pela Inquisição o padre Estêvão Moreira da Silva, após ouvir as testemunhas, mandou presos para Luanda os  lhos António, Colombo, Natália e Margarida porque participantes no entambe, prendendo o Capitão em casa, por estar muito doente. Este veio a falecer 4 meses depois.
(Silva Rego, Sanja Pantoja,Gastão Sousa Dias)

Cândido Azevedo

*Texto publicado em edição impressa de 21 Agosto