Candido Azevedo2Sabia que… tudo quanto necessário para construir o castelo de São Jorge da Mina, em 1482, fosse em mão-de-obra especializada fosse em materiais, foram levados de Portugal, estes últimos como lastro nos navios? E que… Duarte Pacheco Pereira, um dos grandes navegadores dos séculos XV-XVI e capitão de guerra na Índia, foi daqui levado a ferros para Lisboa e encarcerado?

A partir de Arguim, os comerciantes portugueses a mando do Infante D. Henrique, agora senhor do monopólio da navegação, terras e comércio para além do Cabo Bojador, continuaram ao longo do século XV a descer a costa africana na procura de rotas de comércio ou estabelecendo feitorias, como a da Ilha de Goréia na costa do Senegal, ao tempo grande centro de comércio de escravos, ou em Serra Leoa, na foz do Rio Bitondo, chegando na década de 80 à costa do Gana, no Golfo da Guiné, onde iriam estabelecer a feitoria da Mina (de Ouro).

Por esta altura já os portugueses praticavam a navegação astronómica, graças a dois instrumentos: o quadrante e logo depois o astrolábio. Navegavam assim longe da costa e descobriram forma de voltar da Guiné mais depressa, se contornassem os ventos contrários que sopravam na costa africana. Ninguém tinha tecnologia parecida.

Desta costa começava a vir a riqueza que alimentava a economia de Portugal até o negócio da Índia se tornar rentável. Anualmente mais de 400 kg em ouro vinha para Lisboa, razão que levou a Coroa a fixar rígidas medidas para evitar o seu contrabando ou desvio.

D. João II vai ordenar a construção de um novo entreposto, visando proteger ainda mais o comércio do ouro, cobiçado por todos os países europeus. Para esse fim, a 12 de Dezembro de 1481, envia uma expedição sob o comando de Diogo de Azambuja transportando uma guarnição militar de 600 homens, entre os quais Cristóvão Colombo, que viria a descobrir a América em 1492. Esta armada levava ainda um cento de pedreiros, carpinteiros e demais especialistas homens e mulheres, bem como diverso material de construção como pedra trabalhada e numerada, gesso e cal, que foram transportados como lastro nos navios. Este novo entreposto, agora Fortaleza de São Jorge da Mina, a primeira das fortificações europeias ao Sul do Saara, abrangia uma área circundante, conhecida como “duas partes” onde predominavam duas povoações habitadas respectivamente por europeus e nativos. Estes nativos aliados tinham a capacidade de armar um pequeno exército de cerca de 150 homens que muitas vezes combateu ao lado dos portugueses. São Jorge da Mina recebeu carta de foral de cidade a 15 de Março de 1486, doada pelo rei português.

De imediato Mina viria a substituir a feitoria de Arguim em importância militar e económica, assegurando a soberania e o comércio português na costa ocidental africana. A sua autoridade estendia-se a muitas outras feitorias e fortes já existentes ou levantados posteriormente naquela costa, como a de Benim, em 1486, S. António de Axém, em 1503, a de S. Sebastião de Shemá em 1526, Acra em 1557, etc., não só com o objectivo de proteger e fomentar as trocas comerciais com a região atraindo para a costa africana o comércio terrestre de ouro sudanês, então nas mãos dos muçulmanos, mas também torná-los acima de tudo, especialmente Benim, importantes centros de tráfico de escravos, inseridos na rota comercial entre S. Jorge da Mina e as ilhas de Cabo Verde.

Ficaria esta parte do litoral africano designado de Costa do Ouro.

O incremento do tráfico de escravos veio dar a São Jorge da Mina maior importância enquanto entreposto. Outros produtos ali comercializados eram especiarias, mar m e papagaios.

Esta rede de fortes, feitorias e suas riquezas haveriam de despertar a cobiça internacional, inicialmente de espanhóis e franceses. Porém virão a ser os holandeses que as conquistarão entre 1637 e 1642 terminando com os cento e cinquenta anos de domínio português.

Teve esta feitoria famosos capitães. Duarte Pacheco Pereira (1519-1522), autor do “Esmeraldo de Situ Orbis”, um dos grandes navegadores dos séculos XV-XVI, foi um deles. Herói de Cochim e Coulão, este capitão de guerra na Índia cai em desgraça devido à nova conjuntura política, proveniente da subida ao trono de D. João III. Detido sem acusação conhecida e com os seus bens confiscados, foi daqui levado a ferros para Lisboa e encarcerado. Libertado pouco depois, não se conhecem ainda hoje os reais motivos desta decisão do rei D. João III.

(J. Cordeiro Pereira, Raimundo Cunha Matos, Gomes Eannes de Zurara)

Cândido Azevedo

*Texto publicado em edição impressa de 24 Julho