Sabia que … o túmulo vazio de Vasco da Gama, na igreja de S. Francisco em Cochim, a primeira igreja cristã na Índia, é a principal atracção turística da cidade? E que … após 159 anos de soberania portuguesa, esta foi dada aos holandeses como parte do acordo de retirada daqueles do nordeste brasileiro, que ocupavam?

Pedro Álvares Cabral é o primeiro português a contactar o reino de Cochim, cuja cidade era considerada a “Rainha do Mar Arábico”, por ser um importante centro de comércio de especiarias na costa do Malabar desde o século XIV. Vassalo, mas inimigo do poderoso Samorim de Calecute, recebeu bem os portugueses e de imediato lhes permite a construção de uma feitoria. Em 1503, o rajá Goda Varma de Cochim é derrotado pelo Samorim e feito prisioneiro. Resgatado pelos portugueses em Setembro desse ano, estes obtêm permissão para construir uma fortaleza, que seria o primeiro assentamento europeu na Índia e ponto de partida para a expansão do Império Português no Oriente.

Em 1504, a fortaleza ainda em obras foi atacada por uma armada do Samorim capitaneada pelo temível pirata Mohammed Kunhali Marakkar, e defendida por Duarte Pacheco Pereira, o mesmo que anos depois, quando capitão de S. Jorge da Mina será levado preso para Lisboa.

Em 1506, com a chegada do 1º Vice-Rei da Índia, D. Francisco de Almeida, Cochim transformou-se na capital do Império Português do Oriente. Por determinação deste, aquele forte será reconstruída em pedra e cal e será chamado de “Castelo Manuel”. Dentro do forte será construída uma igreja com estrutura de madeira, dedicada a São Bartolomeu. A igreja de madeira foi reconstruída por frades franciscanos, concluída em 1516 e rebaptizada de Santo António. Os franciscanos mantiveram o controle sobre a Igreja até Cochim ser entregue aos holandeses em 1663, e será só em 1795 agora com os ingleses senhores de Cochim, que estes lhe mudam o nome para Igreja de S. Francisco.

Foi na então igreja de S. António que o corpo de Vasco da Gama foi inicialmente sepultado, quando, vítima de malária aqui morre na véspera de Natal de 1524, nas funções de Vice-Rei, naquela que era a sua terceira missão na Índia. O seu túmulo, embora vazio, (pois após catorze anos os seus restos mortais foram trasladados para Lisboa), ainda pode ser visto no chão da Igreja. Este túmulo é ainda a principal atracção da cidade. Esse elo com o descobridor do caminho marítimo para à Índia, inaugurador da história moderna dos contactos entre o Ocidente e o Oriente e do mundo culturalmente influenciado pelos portugueses é o que justifica para muitos esta visita.

Em 1530 Cochim deixa de ser a sede do Governo, dado que o Vice-rei se transferirá para Goa, uma cidade estrategicamente mais central e conquistada 20 anos antes.

Porém nada impediu que se mantivesse como grande centro religioso e económico, seguindo daqui para Portugal variadas especiarias como pimenta, gengibre, cardamomo, canafístula, zerumba, zedoária, canela silvestre, benjoeiro, alúmen e essências diversas.

Durante os séculos XVI a XIX, a partir de famílias indo-portuguesas católicas vai existir o crioulo indo-português de Cochim, conhecido localmente como “Português de Cochim”, formado a partir do contacto entre o português e outras línguas faladas na antiga Cochim. Irá ser a primeira linguagem de contacto que surgiu a partir do contcato europeu na Ásia. Hoje são muito poucos os membros da comunidade católica que sabem falar esse crioulo de base portuguesa. Mas até há pouco mantinham-se as festas, algumas músicas e representações de autos religiosos, extremamente grandes, que exigem a participação de mais de cem pessoas e muitas outras tradições particulares que só encontram par noutros pontos onde a indo-portugalidade ainda subsiste.

Perdeu-se Cochim definitivamente em 1663, após 159 anos de soberania portuguesa. Esta foi dada aos holandeses como parte do acordo da retirada daqueles do nordeste brasileiro que ocupavam.