Candido AzevedoSabia que … em África, o primeiro edifício construído em estilo gótico manuelino foi a Catedral de Santa Catarina, em Safim, e que o seu bispo morreu na prisão em Portugal?

 É logo após a conquista de Arzila (1471) que Safim, uma das cidades ao sul do litoral de Marrocos, se torna vassala da coroa portuguesa por vontade do governante mouro da cidade. As condições em que essa relação de vassalagem vigorava consta num diploma de D. João II, no qual o dito governante reconhecia o rei de Portugal como “seu senhor, por si e por seus concidadãos, presentes e futuros”. Não é de admirar, pois por essa altura os portugueses já navegavam pelas tórridas águas do Equador, projectando um plano de projecção marítima potenciada pelos lucros da exploração do Golfo da Guiné, substanciada na bula papal Romanus Pontifex e alicerçada nos primeiros passos de uma inovação tecnológica e capacidade bélica superiores.

Desta forma estabelecem-se em Safim alguns comerciantes portugueses. Contudo o negócio destes não funciona em pleno devido à desunião que se instala no seio dos habitantes por causa do acordo de vassalagem a Portugal. Em 1508 Diogo de Azambuja a pretexto do pedido de protecção por um grupo de moradores, toma de assalto a cidade. Passava a ser mais uma praça-forte com um capitão-mor português, sendo rapidamente fortificada com uma cintura de muralhas.

O período da governação de Nuno de Ataíde, a partir de 1510, será um período de valentia e ousadia dos portugueses em Marrocos, proporcionando um intrigado jogo de lealdades, alianças, estratégias e interesses, com destaque para a figura do chefe Yahya Bentafufa, “mouro para os cristãos e cristão para os mouros”, Senhor de uma vasta zona de milhares de quilómetros quadrados, amigo dos portugueses e que por várias vezes esteve na corte do rei D. Manuel em Lisboa. Este território sob sua influência será denominada zona de “mouros de pazes”, cujos habitantes eram tributados pelos portugueses em cereais e gado.

A obra de relevo em Safim vem a ser a Catedral de Santa Catarina, a primeira construção em gótico manuelino em África, construída em 1520. Tratava-se de um edifício de três naves e uma capela-mor lateral. As colunas e colunelos com as abóbadas de feixes de nervuras e arcos cruzados parecem apontar para uma estrutura imponente. As nervuras no tecto abobadado, ainda existente, projectam nove divisões contendo uma iconografia que conta uma parte da história da passagem dos portugueses pela cidade: o escudo de D. Manuel, a Cruz da Ordem de Cristo, a Esfera Armilar, as armas episcopais de D. João Subtil, as chaves de São Pedro, três folhas de uma planta e uma outra que se desconhece.

Em 1499 é criada a diocese de Safim. Entre vários bispos que teve o único que lá residiu uns tempos foi D. João Subtil e a partir de 1520, apesar de nomeado em 1512. Este bispo caiu em desgraça perante D. João III, rei extremamente religioso e introdutor da Inquisição em Portugal, acabando por ir parar à prisão, em Lisboa, onde morreu.

Safim foi abandonada em 1542, cerca de 70 anos após a presença dos portugueses, logo depois da queda da Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué em 1541. Antes do abandono D. João III ordenou a destruição da catedral.

(Damião Peres, Filipe Themudo Barata, Maria Augusta Lima Cruz, David Lopes, Pierre de Cenival)

Cândido Azevedo