paulo narciso 5 miniO meu iogurte preferido é grego.

Chama-se Oikos.

Dizem os compêndios de história que Oikos reflecte a Idade das Trevas e marca a fase da queda do mundo grego-micênico.

Foi há muitos, muitos anos…

Assim, pergunto: Como poderá esse níveo e lácteo prazer, metaforizar o conceito pelo gosto do estorricado projecto europeu?

Aparentemente, trata-se de uma missão quase impossível, mas menos inexequível é perceber-se que a liberdade de um povo é o seu “prazer autêntico”; a soberania de um povo, a sua “cremosidade”; a dignidade de um povo, o seu “sabor incomparável”.

Quando vejo o anúncio televisivo do iogurte e ouço aquela avó grega ‘acusar-me’ de lhe ter roubado “o prazer autêntico da nossa receita”, penso no que será, um dia, para nós portugueses, herdarmos a fórmula grega e passarmos a fazer fila nos multibancos para sacarmos meia dúzia de patacos, disponíveis para nos matar a fome e pouco mais do que isso.

Mas se me é permitido meter a colher em boião alheio, parece-me bem melhor a ‘receita grega’ do Oikos, do que as políticas helénicas dos últimos governos que passaram por Atenas.

Se os gregos têm culpa? Claro que também a têm, empurrados que foram para um ‘el dourado’ de benesses prometidas que escondia as verdadeiras fragilidades financeiras da nação.

Foram dezenas de anos de sucessivos governos a ‘venderem’ sonhos e euros com um fingido “sabor autêntico”.

Um gosto que escondia uma realidade: nenhum iogurte, por tão cremoso que seja, dura sempre e lá chegará a hora em que raspamos com a colher no fundo, lambemos a tampa e o prazer se esgota, na Grécia, em Portugal, ou em qualquer canto do mundo.

No final do anúncio, a senhora grega estica a corda das lamentações, enquanto outras duas seguram guitarras sem grande jeito para a música: “Ou devolver Oikos, ou nós roubar fado português!”, grita uma delas, numa construção frásica que faz jus à actual edificação europeia.

Oikos, esse “universo” endividado a que chamamos Europa, tenta, num derradeiro esforço, “alimentar sorrisos” em salões de alta finança, mas cremosas, mesmo, e bem audíveis, são as gargalhadas dos credores.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 10 Julho