paulo narciso 5 miniO ar está saturado. Muitos já não respiram. Outros assobiam da varanda, apreciando a brisa que os embalará até ao final do Verão.

Luta-se cá fora com um sorriso nos lábios e em tom coloquial, mas é lá dentro que a guerra é dura. Percebe-se pelo traje: neles, camisa branca engomada; blusa florida, nelas. Mas quando se voltam, há feridas por sarar e rasgões com marcas de sangue fresco nas costas.

 

De política percebo pouco.

Tão pouco que os anos passam e continuo sem alcançar a razão de haver nas listas nomes com quem nunca me cruzei e que em breve me visitarão com simpáticas juras de amor eterno a Santarém.

Encontraremos, sem dúvida, laços de proximidade num trisavô de Ortiga, numa bisavó de Cem Soldos, ou num avô que molhava os pés no Tejo e depois se passeava pela Cova da Onça, em Valada, junto ao rio.

Cidadãos que, num ápice, se anunciam defensores de uma rua que não conhecem e, muito menos, sentem como sua.

Por vezes, em conversas de amigo, desafio-os a dizerem-me os nomes de meia dúzia de deputados eleitos por Santarém. Ninguém chega a tantos.

Na corrida à constituição das listas, as federações são ultrapassadas por imperativos nacionais que distribuem pelos distritos figuras receosas de perderem o lugar na política nacional, ou quem se habituou “a servir o País” bafejado por uma imortalidade político-jurássica ao abrigo das mordomias partidárias. São esses que ocupam o topo. Sejam de Bragança, de Coimbra ou do Algarve, chegam para ‘defender Santarém’.

Feridos de morte, alguns; consolados, outros; ou em estado de graça, disparam-se espingardas nesta autêntica batalha que é garantir o nome numa lista em lugar elegível.

Por cá, o PS tornou-a pública antes da direcção nacional do partido a ter validado, o que levou a que nomes anunciados desaparecessem dela como por magia. O distrito escolhe, mas é Lisboa quem decide. ‘O homem põe e Deus dispõe’.

Por sua vez, o PSD anuncia os nomes de dois actuais deputados nos derradeiros lugares da lista. Soa a execução de pena.

Mas quem lá anda sabe disso: no palco político, entrar, manter-se, ou sair de cena, é cada vez menos uma representação inocente… e há que estar pronto para dar as costas a umas pancadinhas de Molière, quando se apagam as luzes, o pano sobe e o teatro começa.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 31 Julho