paulo narciso 5 miniSão 8h30 da manhã de terça-feira.

Esta semana escrevo-vos sobre bombeiros.

Se o fosse, seria sempre um bombeiro revoltado, capaz de me atirar a quem me viesse, de fato e gravata, dar lições de moral sobre a forma como arriscava a minha vida em frente a um inferno de chamas sem rosto.

Desde a meia-noite de hoje [terça-feira] e até à hora em que vos escrevo [8h30] já foram registados 342 novos incêndios… 342! Não é gralha, é crime mesmo.

Tive uma professora, nos primeiros anos de escola, que de forma inocente e carinhosa ensinava-me os cuidados a ter com a floresta: não brincar com fósforos e que um simples vidro poderia provocar um grande incêndio… Hoje, o dia acordou fresco e nebulado, o sol brincou às escondidas com a lua como faz todas as noites e, mesmo assim, 342 novos incêndios surgiram das trevas em apenas oito horas.

Ser bombeiro em Portugal é uma profissão de risco. É um risco louco, por vezes. Para a maioria, nem profissão chega a ser. Corre-lhes no sangue a coragem de ajudar os outros em momentos difíceis. Apertamos-lhes as mãos com lágrimas nos olhos quando nos salvam a vida ou os bens e criticamo-los quando não chegam rápido ao nosso momento de aflição, sem termos a capacidade de perguntar se estariam, porventura, noutro desses momentos, a salvar outros bens e outras vidas.

Andam vídeos a circular na internet que nos mostram o momento raro em que uma coluna de bombeiros, muitos deles deste distrito, é aplaudida de pé, à passagem por Moraleja, quando se encaminhavam para ajuda a debelar o fogo na Serra da Gata, Extremadura espanhola.

Eles são o fim da linha, os mais expostos, os que sofrem na pele a indiferença de quem decide, a inoperância de quem parece ainda ter medo de assumir que a generalidade dos fogos tem origem criminosa.

Quem lucra com os incêndios em Portugal?

Se encontrarmos resposta a esta pergunta, estamos a ajudar os bombeiros, a reduzir-lhes as frentes de combate, a dar rosto às chamas que nos roubam vidas e bens, no fundo, a encontrar explicação para uma dúvida que nos assiste e consome, em múltiplas frentes, mas longe de ser combatida olhos nos olhos.

 

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 14 Agosto