Digam-me o nome de líderes de claques; digam-me o nome dos três presidentes dos ‘três grandes’; digam-me nomes de representantes desses clubes nos programas televisivos onde se ralha o futebol português, o tal que é campeão europeu dentro das quatro linhas.

Parabéns! Acertaram quase todos!

Digam-me agora o nome do treinador dos Sub-10 do Footkart de Almeirim que viu, no mesmo jogo, dois cartões brancos (sabem, é claro, o que isso significa…). Não? Eu ajudo. Chama-se Pedro Caniço e desde o passado dia 25 de Novembro juntou o seu nome aos que ainda acreditam que o futebol não é só o que as televisões nos mostram.

Para os mais distraídos eu explico: a Associação de Futebol de Santarém (AFS) foi pioneira na adesão ao ‘Cartão Branco’ que o árbitro traz no bolso, junto ao amarelo e ao vermelho, para premiar atitudes eticamente correctas durante as partidas.

Na época 2016/2017, os árbitros da AFS mostraram quatro (ler notícia na página 25): aos adeptos do Moçarriense, a Bruno Caldeira (UD Abrantina), a André Coutinho (delegado do SCD Glória) e a Frederico Condeço (treinador do CAD Coruche) que colocou a sua equipa a alinhar com quatro atletas uma vez que a equipa adversária só dispunha de outros tantos para esse jogo.

A história de Pedro Caniço conta-se rápido: ajudou uma criança (Sub10) da equipa adversária que necessitava de ajuda médica urgente e, noutro momento, ordenou a todos os seus jogadores, após a marcação de um golo irregular pela sua equipa, que o árbitro validou, que no reatamento da partida permanecessem estáticos permitindo à equipa adversária marcar e trazer de novo justiça ao resultado.

Tudo isto para dizer que ainda vale a pena acreditar que o futebol em Portugal não é só demência televisiva, mau jornalismo, fanatismo, invasões de campo, agressões a árbitros e a jogadores que há muito já chegaram ao futebol dito de ‘formação’, como no passado fim-de-semana, num jogo de futebol de 7 da Associação de Setúbal, no escalão de Benjamins (!) imagine-se, durante o qual o árbitro foi agredido.

Caminhamos a passos perigosamente largos para tudo o que repudiamos no desporto e na vida, num adormecimento colectivo que acabará em tragédia se não lhe pusermos termo.

Já aqui escrevi que o futebol em Portugal devia parar um tempo para se repensar. Histórias como a de Pedro Caniço mereciam mais e melhor divulgação. É tudo uma questão de formação, educação e berço. E não é apenas o futebol que está sedento, como de pão para a boca, desses valores universais que continuarão a ser o tema do ‘Ponto Final’ da próxima semana, desta vez a propósito de um dromedário que perdeu a cabeça num largo de Santarém. Mas antes, já alguém a tinha perdido também…

João Paulo Narciso