Tenho comigo uma imagem do fogo no ‘Pinhal do Rei’ que já correu mundo, captada por um canarinho de asa ferida de Vieira de Leiria.

Choramos hoje uma centena de mortos. Cem almas que merecem que, por elas, façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para pôr fim a anos de desleixo acamado como caruma, nesta braseira nacional a arder por debaixo de uma camilha de interesses que aquece os pés a quem quer que nada mude e deseja que o tempo seque rápido as lágrimas da nossa curta memória.

Na segunda-feira, a minha irmã ligou-me, triste: “Paulo, já não temos o pinhal de Leiria!”. Percebo-a. São Pedro de Moel foi, durante uma dúzia de anos, a nossa praia; Marinha Grande, a nossa cidade. O caminho, entre ambas, fazíamo-lo de bicicleta, por entre pinheiros a cheirar a vida sem fim, e, já com o mar à vista, retorcidos numa dança salpicada pela maresia que tornava aquele lugar único.

Muito se tem falado de demissões, deste e daquele. Dependendo da forma como se está na vida pública, a ministra já o poderia ter feito há mais tempo. Ela e os ministros de todos os governos que nunca tiveram pedalada para percorrer de bicicleta aqueles pinhais.

Porém, sou dos que pensa que o país precisa de muito mais do que da demissão de uma ministra. Se formos apenas por aí, poucos sobram para assumir os erros, ou pedir, humildemente, desculpa. Precisamos, isso sim, de um plano global que faça a gestão do território de forma competente, (o relatório da Comissão Técnica Independente pode ser uma boa boleia), de perceber que o Portugal temperado das quatro estações já era e que as alterações climáticas têm transformado o planeta.

O luto é nacional. A calamidade é pública e colectiva. O país arde ao sabor de interesses tocados a vento e continuamos, ano após ano, a enterrar a cabeça na terra queimada e a pedir aos santinhos que a chuva disfarce a nossa incompetência.

Sentimos a culpa saltar de mão em mão, a queimar-nos as mascarradas pontas dos dedos, como as castanhas acabadas de assar em dia de todos os santos. Sopramo-las para que esfriem. Depois de arrefecidas saciamo-nos, até nos queimarmos de novo. De luto, em luto. Até quando?

João Paulo Narciso