paulo narciso 5 miniOs portugueses estão a banhos. O tempo é de espreguiçar os sonhos. Os hotéis do Algarve não se queixam da crise. O ambiente é de festa e só o vai deixar de ser, nos finais de Setembro, quando o extracto do cartão de crédito lhes chegar a casa.

Até lá, é dar crédito aos mais profundos desejos, levando a vida ao sabor de um vento que, até lá, vai soprando de feição.

Da esplanada aprecio uma senhora rechonchuda com a filha com sotaque do Norte que se fazem ouvir por cima do barulho das ondas.

Ambas iniciam uma subida vagarosa e ritmada. Degrau a degrau aceleram o passo numa contagem morna, cadenciada e barulhenta.

Os degraus são curtos e os joelhos doem. O corpo puxa-as para baixo, os pés escorregam-lhes nas partes molhadas. A cara rosada pelo esforço da subida atrasa a fila que desespera atrás das duas veraneantes que, nitidamente, não têm ido aos treinos. As alturas fazem-lhes vertigens, mas a vista é deslumbrante. Tudo à volta é azul, até o bikini da senhora rechonchuda neste galgar sagrado, versão lúdica do Bom Jesus de Braga.

Aguardam as duas na fila e miram o horizonte. A mãe grita e acena para o marido que ficou cá em baixo de cerveja na mão.
A fila é ruidosa e húmida. Os corpos salpicam gotas de água e o povo não se cala.

Os últimos degraus são subidos a compasso, até que chegam ao topo.

O vento sopra forte e frio, nada a ver com o verão de outros tempos. Arrepiada, a filha com ar maroto empurra a mãe que solta os pés do chão com um impropério.

Desamparada deixa-se cair levada por aquela cascata de emoções. Rebola da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, a ganhar velocidade em cada curva.

A descida é estonteante e o corpo, embalado, ao sabor da água, é atirado sem controlo contra as paredes plásticas da diversão.

Depois do vertiginoso serpentear sai disparada para a água. Chegou o fim da viagem. A subida de alguns minutos perdeu-se no rodopiar constante de breves momentos, num simples escorrega de Verão. Muitos chamam-lhe ‘silly season’. Quase sempre com razão. Boas férias.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 21 Agosto