paulo narciso 5 miniPortugal arde como há muito não ardia.

“Ninguém se ‘Ka mov’ [cá move] para inverter esta sina!?”.

A chalaça ouvi-a num café de bairro a dois homens cercados pelas labaredas de espuma que galgavam, em duas frentes, pelas gargantas sequiosas de ambos, numa mesa quase consumida pelas minis.

“E alguém se ‘Ko mov’ [comove] com isso?” – gargalhou o outro em pleno combate.

Tocadas pelo vento que corria na esplanada, as minis multiplicavam-se em projecções que ateavam novos fogachos nas conversas.

“E agora temos menos helicópteros pesados… Dos cinco já só temos três. São pesados em tudo, na capacidade e no custo da oficina”, rematou o outro. “Bravo, Charlie, Bravo! Essa é boa!” – Repetia-se na mesa que aguardava reforços para circunscrever o perímetro.

Nem a propósito, a televisão falava do último fogo em Ourém e reforçavam-se os meios com mais dois elementos.

Já noite dentro, com o estômago em brasa, começaram as operações de consolidação e rescaldo por parte do proprietário do café, que assim reabastecia as arcas e dava início à limpeza, já tardia, do terreno.

Os quatro homens teimavam em permanecer no teatro de operações não fosse algum deles reacender o desejo súbito de voltar a molhar a goela.

Enquanto uns asseguravam os comentários, os outros atestavam.

Na televisão dizia-se que a área ardida mais do que triplicou este ano.

“Pudera, com um verão quente e a floresta transformada num barril de pólvora, é quase impossível alterar este cenário”, rematou um deles.

Os portugueses já se habituaram aos incêndios que nos surgem, quase por decreto, nas fases Bravo e Charlie das nossas vidas.

Comem-se tremoços e bebe-se cerveja a ver o fogo pela televisão, do Minho ao Algarve, como se de uma Volta a Portugal se tratasse.

A severidade meteorológica deste ano – a mais grave dos últimos 16 – é factor decisivo mas não explica tudo, depois de verificarmos o mato que se encontra por limpar, as acessibilidades por criar e o trabalho de prevenção que é, ano após ano, adiado, como se já fosse sina nossa chorar a morte de bombeiros, a perda de bens ou dos milhares de hectares de uma das nossas maiores riquezas – a floresta.

Os meios desmobilizaram finalmente, até nova chamada.

Estamos em estado de prontidão até 30 de Setembro, na fase Charlie, fiquem a saber, se isso vos traz consolo…para além das minis.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 07 Agosto