paulo narciso 5 miniO título que dou a esta crónica fui buscá-lo à obra de Eça de Queiroz, esse escritor de ontem e de hoje, visionário, autor de uma prosa em que muitos se revêem nos nossos dias.

“O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança”, registou, no seu tempo, o escritor.

“Os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados» (…); os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença”, acrescentou, para quem o queira ler, da esquerda para a direita, e, com ele, entender o nosso tempo.

“Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído”, prevê Eça.

E é esta indiferença que ainda hoje nos mata e leva 4,1 milhões de portugueses a marimbarem-se para o seu presente e para o futuro dos seus filhos.

Com cerca de 43 por cento, a abstenção atingiu o valor mais elevado de sempre em Eleições Legislativas no nosso País. Tem vindo a subir e, desde 2009, situa-se acima dos 40 por cento.

A arma da indiferença vence a arma do voto e, quando assim é, assistimos à demissão extemporânea de parte dos actores desta democracia. Um povo livre para o fazer, sim, mas completamente irresponsável.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 9 Outubro