paulo narciso 5 miniA ciência tomou conta das cozinhas. O ar selecto dos cozinheiros chutou para canto as senhoras rechonchudas, de faces rosadas pelo calor dos tachos ao lume em forno de lenha.

Muita rusticidade e pouca ciência dir-me-ão os defensores de uma geração gourmet – a ‘alta-costura’ da culinária mundial.

Sinceramente? Acho que quando o saudoso Joaquim Rum amassava, com um ‘geribalde’, as couves e o pão, lá para os campos de Alcanhões, isso tinha muito mais a ver connosco e proporcionava uma intensa viagem ao encontro da raiz de um povo. E o festival sempre foi isso: o pulsar dos nossos mais profundos segredos culinários passados de pais para  filhos.

Já sem o carismático ‘Zé das Papas’ que deu a alma ao criador, por conta de ‘horizontes de modernidade’ que nos oferecem qualidade, sem dúvida, mas olvidam a maneira mais ancestral do acto criativo das iguarias, deixemos em lume brando apurar as seguintes indagações: o que é que Santarém aprendeu, verdadeiramente, em 35 anos de Festival Nacional de Gastronomia? Em que é que evoluíram os restaurantes da Cidade? Que mais-valias trouxe? Que desafios? Que conclusões? Que rumo traçamos para este Festival que é pai e mãe de tantos outros, de menor expressão, que grassam como cogumelos salteados um pouco por todo o país?

Trinta e cinco anos e a resposta a estas dúvidas continua em banho-maria.

Ainda há pouco tempo, sonhava-se para Santarém uma Universidade da Gastronomia para a antiga fábrica de sabão no Alfange; aguardamos ainda o Museu da Gastronomia que não aquece nem arrefece, mas o reencontro com a ‘grande mesa’ está de volta à ‘catedral da boa cozinha portuguesa’, expressões que me habituei a ouvir quando se fala do Festival Nacional de Gastronomia de Santarém.

Continuarei a ver nele isso mesmo, um  el, único e apaladado reencontro com o nosso gosto.

João Paulo Narciso