paulo narciso 5 miniEsta história é uma das que se contam lá em casa quando a família se reúne e a televisão se desliga, trazendo à sala o conforto de uma conversa. Dizem-me que quando era pequeno e a refeição era canja, concentrava-me frente ao prato, a juntar letras de massa e a formar palavras acabadinhas de aprender na escola e ainda a fumegar. Quase lhes sinto o cheiro.

A sopa de letras dos nossos dias chama-se ‘acordo’ ortográfico: uma autêntica salada russa que abriu as portas à asneira.

Os Jornais são escritos a dois tempos: numa notícia um atleta ata o sapato, noutra, o primeiro ato de uma peça tem um enredo que nem ata nem desata.

Há alguns anos que nas entrevistas de última página que publicamos neste Jornal, desafiamos os nossos entrevistados a dizerem sim ou não ao acordo. A resposta, salvo raras excepções, é quase sempre não. Mesmo alguns que respondem sim admitem fazê-lo por terem sido obrigados a isso no emprego.

O tema nunca foi discutido a sério em Portugal, país habituado a levar ‘com o pau nas costas’ até – das duas uma – que o pau se parta, ou que nos deixe de doer. Em cima da mesa temos agora uma proposta de referendo ao Acordo Ortográfico que quase não é notícia.

O referendo, segundo a Constituição (artigo 115.º-2) pode resultar de iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República mas para isso são necessárias 75.000 (!) assinaturas. Dez mil já assinaram, mas são precisas outras 65 mil, o que não deixa de nos surpreender quando é público que bastam 7.500 para uma candidatura a Presidente da República. (Para assinar: referendoao90.wordpress.com).

Será por ser ‘apenas’ uma iniciativa de simples cidadãos?

Dezenas de personalidades já assinaram o referendo. Se concorda assine, pode ser que seja possível reunir as impensáveis 75 mil assinaturas.

– Deixa de juntar as letras e come a canja enquanto está quente! – Aconselhava-me, com ternura, a minha mãe, longe de pensar que qualquer dia, canja se comece a escrever com k. Só para facilitar, klaro. LOL.

João Paulo Narciso

*Texto publicado em edição impressa de 28 Agosto