Se por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera, pergunto: por degolarem estupidamente um dromedário acabam com o espírito de Natal que Santarém procura também viver?

Claro que não.

Esta forma simples de começar esta crónica, encerra uma questão bem mais profunda e grave que passa por percebermos porque haverá quem delapide o bem comum, faça inscrições em monumentos, derrube sinais de trânsito, ou incendeie contentores do lixo por ‘dá cá aquela palha’.

Todos os anos o presépio do Largo do Seminário é vandalizado, as suas figuras destruídas, o ‘Menino Jesus’ roubado. Esta violência silenciosa e gratuita leva-nos à questão do berço, ou, neste caso, à falta dele.

Perguntem a quem tem uma porta aberta naquele largo, que é um dos nossos mais valorosos ‘cartões de visita’ onde marcam presença duas pérolas da nossa cidade que são a Sé Catedral e o Museu Diocesano, como estes o encontram quando lá chegam nas manhãs em que o cheiro a urina e vomitado é quase insuportável nalguns dos seus encantados recantos.

Trata-se, pois, de uma questão de educação, de um rico berço que não terá de ser, forçosamente, um berço rico, onde deve abundar, não apenas ouro, incenso e mirra, mas, sobretudo, o respeito pelo bem comum – o que falta a muito boa gente.

Antes daquele dromedário perder a cabeça, entretanto já reposta, houve quem a tivesse perdido momentos antes. Tempos que correm, apressados, ao ritmo das redes sociais, as primeiras a constatar o óbvio: a falta de uma educação que estimule a salvaguarda e o respeito pelo usufruto condigno do bem comum.

No meio de um grupo bem bebido ouve-se o desafio de alguns: “não és homem não és nada”, e logo um assume esse temor e se torna ‘camelo’ medíocre de cabeça perdida em presépio sagrado que ilumina e anuncia, imagine-se, uma época de paz interior, de amor e de respeito pelo próximo.

João Paulo Narciso