Carlos OliveiraHá muito que a licença de isqueiro deixou de ser obrigatória, e o serviço militar também deixou de ser obrigatório, mas agora veio o acordo ortográfico obrigatório, além dos impostos que obrigatoriamente pagamos, não se sabe bem para quê, o que é obrigatoriamente uma grande chatice.

Portanto, somos agora obrigados a escrever segundo as novas regras do dito acordo, que não reúne acordo de vários países lusófonos.

E entre as regras (interessantíssimas!!!) há uma que se destaca como princípio básico: “o que não se pronuncia não se escreve.

Coitados dos mudos! Como nada pronunciam, ficam obrigatoriamente sem poder escrever. É um ato (sem “C”) muito injusto.

Usarão então a língua gestual, provavelmente numa réplica do Zé Povinho do Bordalo, o que se compreende e se aceita. Penso até que deveriam usar algo mais característico das Caldas…

Teremos então uma manifestação nacional de manguitos, que a dirigir-se para a porta do Ministério da Educação será obrigatoriamente barrada pelas “forças da segurança”.

Argumentarão os “iluminattis” do acordo que se trata de atender a “acordos” internacionais, e que se estão borrifando para o Camões, preferindo ouvir o Jorge Jesus nas aberturas dos telejornais. Argumentarão também que há uma grande aceitação por parte de crianças e jovens já licenciados em SMSs, e que este acordo não constitui problema p qq escrev bue + smile.

Vendo bem as coisas, esta obrigatoriedade de aprendizagem do novo “acordo” pelas crianças, é semelhante ao ensino ministrado pela PSP de Portalegre, que promove simulacros de pancadaria entre crianças do pré-escolar. Aqui, na escrita, não há pancadaria mas existe a violência da obrigatoriedade, do tipo “se não queres a bem, vai a mal” e és obrigado por lei!

E a lei já entrou em vigor. Dizem que terminou o período de transição. É como tudo na vida, quando se acaba o período há uma transição…

Chegou ao fim mais um ano letivo (sem “C”). “C” de Criança, de Conhecimento, de Cultura. Acabou! E, pasme-se, que agora até os candidatos às presidenciais emitem opiniões e proferem os seus doutos comentários sobre o (des)acordo ortográfico. Curioso verificar que em “corrupção” o “P” de Poder mantém-se!

Se “a língua é a expressão máxima da cultura de um povo”, ficamos reduzidos a uma expressão mínima, e o que é mais grave é que ficamos sem língua! É urgente que as centrais sindicais mobilizem o povo para, em grandes manifestações de rua, dizermos NÃO ao corte da língua. Mais cortes não! Poupem-nos a língua. Vivam os linguareiros portugueses! Vivam os heróis do mar, deste nobre povo, nação valente e imortal…

E agora, para terminar (guardem segredo disto), a CIA já sabe que estamos a ser alvos dum ataque islâmico fundamentalista. O melhor é começarmos todos a gritar (os que ainda tiverem língua): Viva o Al Andaluz !

Perguntava Saramago, o mágico da pontuação:

se o que não se lê não se escreve porque não se tiram também os acentos dos is ?!

Carlos Oliveira

*Texto publicado em edição impressa de 12 de Junho