Carlos OliveiraEra uma vez uma cobra chamada Elaphe Scalaris. De nacionalidade espanhola e em viagem de férias por Portugal, passou recentemente por Santarém, atraída pela grande divulgação que a ERT – Turismo do Alentejo e Ribatejo (com sede em Beja!) faz do património monumental e paisagístico da cidade.

Viajando no Inter-Cidades, chegou à estação da CP no passado domingo 21 de julho, tendo subido a encosta de Santa Margarida com capacete de proteção na cabeça, em direção ao Teatro Rosa Damasceno, onde assistiu a “Ruinas”, com cenas baseadas no best-seller de Scott Smith (uma brutal luta pela sobrevivência).

No final, aproveitou para mijar na mini-selva mesmo em frente, serpenteando-se contente por usufruir de tão agradável espaço verde.

Andou… andou… e chegou ao Museu do Tempo, algo que ela nunca tinha visto, pois não precisa de relógio para nada. Estava fechado! Contudo, a tal ERT alentejana teve o bom senso de colocar informação para ligar o 914658455. Como não tinha telemóvel, ainda assobiou para ver se aparecia alguém. Apenas um cão apareceu pensando que era o dono que o chamava.

Algo inconformada, atravessou a estrada e resolveu visitar o Museu São João do Alporão, onde diziam haver elefantes escondidos. Também estava fechado! Um letreiro dizia que se encontrava em obras. “Coitados dos elefantes!” – pensou.

Perguntou então a alguém que passava o que havia ali por perto com interesse

para visitar. Como o Quinzena ficava longe, disseram-lhe para ir à Casa do Brasil que tinha uma exposição de cobras da Amazónia, ainda vivas, trazidas por Pedro Álvares Cabral. Consta que muito gostou de se enrolar com elas nuas.

Cobras nuas?! Deve ser interessante.” – E pôs-se ao caminho…

A Casa do Brasil também estava encerrada, mas esta por motivo de “período de almoço”. Foi então que reparou na Igreja da Graça, mesmo ali ao lado. Finalmente um monumento com pórtico aberto e adornado de ervas. Entrou, descendo as escadas, o que nada lhe custou pois era cobra-de-escada.

Sem que a rececionista desse por ela, avançou até ao túmulo do Menezes, onde debaixo do mesmo pôde descansar um pouco, escutando o silêncio tumular que sempre os túmulos têm.

O Menezes também não deu pela sua presença. Estaria a dormir… ou entretido com a esposa Beatriz, que devia ser danada para a brincadeira.

Cansada da caminhada, e de tantas visitas, acabou por adormecer em gótico flamejante, o que lhe dava algum aprazível calorzinho.

Estava ela flamejantemente a passar pelas brasas, quando de repente ouviu barulho de botas nas pedras do templo. Abriu os olhos e qual não foi o seu espanto ao ver um militar da GNR apontar-lhe uma arma e ordenando:

“Mãos ao ar!”

Mãos ao ar?! Como assim?!” – perguntou.

Só então o Núcleo de Proteção Ambiental da GNR, que entretanto tinha sido chamado ao local para tomar conta da ocorrência, reparou com espanto tratar-se de uma cobra.

Não disparem! Não disparem! Eu sou cobra mas não vos cobro nada.” Satisfeitos com a declaração do réptil, pediram-lhe que assinasse o auto de investigação, e, amigavelmente, ajudaram-na a regressar à estação da CP, onde esperaria pelo regresso do Inter-Cidades.

Enquanto isso, caso o Museu Ferroviário estivesse aberto, aproveitaria para mais uma emocionante visita In.Santarém.

Carlos Oliveira

*Texto publicado em edição impressa de 10 Julho