À hora combinada lá estava o meu amigo à porta do café, esperando por mim para convivermos um pouco.

Entrámos e pedimos duas bicas. Era o hábito diário depois do almoço.

A televisão estava ligada, mas desta vez, surpreendentemente, sem som. As pessoas gesticulavam duma maneira que o meu amigo achou hilariante. “Parecem marionetas no teatro!” – disse ele sorrindo.

Perguntou-me então se eu ainda continuava no grupo de teatro. Respondi-lhe que sim, e aproveitei para lhe perguntar se não gostaria de experimentar. Disse-me que não tinha jeito para essas coisas, e que não tinha tempo. Acrescentou que se ocupava agora a servir os outros numa digna missão de voluntariado. E, desta vez, foi ele a questionar-me: “Não queres ir até lá dar uma mãozinha, também?”

Recusei argumentando que, tal como ele, não tinha tempo. Mas acrescentei que também fazia voluntariado no teatro; também servia os outros, através da arte.

Ficou a olhar para mim, como se nunca tivesse pensado nisso.

E a conversa continuou comigo a dizer-lhe que um palco é um local onde se prestam serviços públicos. De todas as artes, é o teatro que tem características transcendentes. E disse-lhe isto de propósito, pois sei que ele se interessa muito por assuntos metafísicos.

“Transcendentes?! ” – perguntou-me franzindo o sobrolho como quem não acredita.

A partir daí foi uma interessante cavaqueira sobre paralelismos que eu ia fazendo. O primeiro, que motivou logo a sua apurada atenção, foi a encarnação da personagem no actor, no momento em que este lhe dá vulto e forma, figura de ser vivo. Quando o actor se parece em tudo com outra pessoa que não ele.

É como se o nosso corpo estivesse com outro dentro! E isso é tão carnal que se respira com outros batimentos cardíacos, que se sentem, e que se vivem como se nos tivéssemos transformado noutro ser. Fantástica é a capacidade que temos de ser “habitados” por diversos seres, quer dizer, por diferentes personagens dentro das personalidades que somos.

“Percebes?” – perguntei-lhe.

Sorriu e disse-me: “Estás a precisar de ir ao médico urgentemente!”

Compreendi que lhe era difícil aceitar o que eu estava dizendo. Mas mais surpreendido ficou ao ouvir- me afirmar que, tanto o corpo dele como o meu, são apenas carcaças pertencentes ao mundo mineral, feitas de matérias orgânicas, líquidas e gasosas, que se decompõem após a morte física. São como as roupas do teatro que vestimos (quando nascemos), e que despimos (quando morremos).

“Que nascemos e morremos, toda a gente sabe!” – disse ele.

No entanto, podemos dar à representação da nossa vida uma caracterização e uma encenação, para que o ser se torne como humano. Existimos muito para além do corpo físico. Realidade que nos habituamos a reconhecer. Mas as nuances dessa realidade que compreendem o nosso ser emocional, a nossa capacidade pensante, e sobretudo a voluntariedade das nossas escolhas, fazem de nós “actores” personagens que transcendem a própria representação.

Então, vivenciamos no palco e nos bastidores…

“O que achas disto?” – perguntei-lhe sorrindo.

“Acho que estás mesmo apanhado!” – disse ele.

Sabes que a empatia que se estabelece entre actores e público, é um elo duma corrente de fé? – voltou a sorrir – é olharmos para algo que sabemos ser ilusão mas que acreditamos ser real. E, de repente, já não sabemos distinguir bem uma coisa da outra. Ilusão ou realidade? Ou, como alguém lhe chamou, a arte dos sentidos e das emoções? No Principezinho, de Saint-Exupéry, ele despede-se desta vida terrena, dizendo que deixa cá o corpo, pois é muito pesado para o levar consigo na viagem.

E também diz que “o essencial é invisível aos olhos!”

Desde a Grécia antiga que o Teatro é um acto de culto divino (Dionísio era Deus do teatro, da fertilidade e do vinho).

Também os vários cenários das cenas, podem ser cenas dos vários cenários das nossas vidas. E o acto criativo de escrever um texto, de o encenar e representar, faz de nós criadores, tal como o somos no momento da formação de um embrião humano, da gestação de um feto, e do nascimento de um filho.

“Nós, actores, criamos vidas! Percebes?” – perguntei- lhe curioso. Ficou olhando seriamente para mim, sem responder.

“E damos a essas vidas novos significados; todos nós somos criadores!” – Entendes agora?

“Estás a tentar dizer-me que somos deuses?” – perguntou voltando a sorrir.

“Sim. É isso mesmo!” – respondi com uma palmadinha no seu ombro.

E também sorri…

 

Carlos Oliveira